FÁBULAS

A elaboração do vivido

23:14 · 23.04.2011
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Especialistas em psicodrama, Érika Pessoa, Lia Dantas (ao centro) e Maira Queiroz entendem que a criança consegue transpor o pensamento mágico para a lógica racional ao elaborar bem suas experiências infantis. As fá
Especialistas em psicodrama, Érika Pessoa, Lia Dantas (ao centro) e Maira Queiroz entendem que a criança consegue transpor o pensamento mágico para a lógica racional ao elaborar bem suas experiências infantis. As fá ( Foto: Kid Jr )
O livre trânsito da fantasia à realidade, na idade adulta, é uma conquista das boas vivências na infância de seu universo mágico. Distinguir o real do imaginário, empregando adequadamente cada uma dessas esferas em seu devido lugar nas experiências cotidianas é resultado da elaboração interna de tudo o que foi vivido.

As fábulas, no entender da psicóloga e psicodramatista Lia Dantas representam a porta de entrada para conteúdos de uma riqueza impressionante. Há sempre o convite para um novo aprendizado. "Cada vez que ouvimos uma história, a escutamos de um lugar distinto. Por isso, as crianças pedem que sejam repetidas tantas e tantas vezes, fazendo sempre perguntas para determinadas situações", comenta.

Um dia, a criança já não sente a necessidade de perguntar mais nada, diz Lia. Exatamente quando conseguiu internalizar e incorporar seu aprendizado.

Fortes apelos

A televisão, o computador e o vídeo game são atrativos que chamam as crianças e os jovens o tempo todo para o mundo virtual. As longas horas em frente a esses aparelhos, recebendo avalanches de informações e com o corpo praticamente sem movimento, roubam um tempo precioso de suas experiências internas, vivências e socialização.

As fábulas e histórias, além de oferecerem possibilidades ao desenvolvimento do universo da imaginação, também elucidam muitas das questões prementes que povoam a alma humana desde tenra idade, a partir de sentimentos contraditórios e tensões que deverão ser equacionadas sob alternativas do possível.

A psicopedagoga e psicodramatista Maira Queiroz explica que a fantasia representa a linguagem na qual a criança inicia sua comunicação com o mundo, antes da própria aquisição da linguagem verbal e estruturação do pensamento lógico. Por meio do pensamento mágico os pequenos conseguem elaborar suas vivências. "É quando a criança vê chover e pede para a mãe: faz parar de chover", exemplifica.

Para a criança faz todo o sentido. Mais adiante, é esse tipo de pensamento (em imagens) que irá ajudá-la em sua estruturação mental, construindo uma lógica que já pode deixar de lado a dimensão mágica para a racional e hipotética, diz Maira. Dai para a frente buscará comprovar tudo com suas vivências.

O preocupante sucede quando, no processo de amadurecimento, o jovem não sai do pensamento mágico, ou seja, não é capaz de fazer essa passagem da fantasia para a realidade. Mesmo para os criadores, que lançam mão de sua imaginação o tempo todo (como publicitários, artistas, escritores), a lógica de suas produções deve estar alicerçada na razão.

Para a pedagoga, especialista em psicopedagogia e psicodrama, Erika Pessoa, as fábulas e histórias ajudam crianças (e também os adultos) a externarem suas percepções e sentimentos em um espaço saudável.

O teatro, para as psicodramatistas, auxilia na criação de personagens (na fábula, trazendo as qualidade dos animais). Jacob Moreno (criador do Psicodrama), postulava ser o teatro um grande exercício de percepção, ao se assumir papéis distintos, colocando-se muitas vezes em pontos distintos para ganho de nova consciência (ao se posicionar no lugar do outro). A brincadeira, o faz de conta, o exercício da imaginação acabam fazendo todo o sentido, quando estão a serviço da elaboração do real.

A opinião do especialista
Atenção às crianças

Na última semana o país assistiu aos acontecimentos de Realengo em estado de choque. Um trauma se constitui na alma dos brasileiros. A questão traumática comparece à cena do cotidiano a partir de uma referência à violência. O ser humano é defrontado com a sua condição de impotência extrema frente a um acontecimento ameaçador ao eu, seja um eu pensado numa perspectiva social ou não. Ora, quantos pais não se identificaram com a situação ao imaginar seus filhos na escola?

Dentre as pessoas envolvidas, as crianças que presenciaram as ações do atirador merecem receber atenção especializada. As informações dos noticiários, que uma equipe de psicólogos já começou a realizar atendimentos com as vítimas e familiares, confortam. Porém, cabe um parêntese em relação ao atendimento infantil, devido à aterrorizante cena traumática presenciada.

O traumatismo (o fato, a ocorrência externa) não é somente o fator preponderante para a constituição de patologias, mas deve-se levar em consideração as questões ligadas à constituição do trauma no psiquismo (construção interna), a posteriori, que tem relação com a forma como a família percebe o seu filho e lida com a situação traumática.

O que se passou em Realengo foi um verdadeiro ato de insanidade e barbárie, porém não deve ser devido ao mesmo que suas vítimas irão desenvolver algum tipo de transtorno ou ficarão gravemente traumatizadas pelo resto de suas vidas. Todavia, trazer o peso dessa referência para o dia a dia dessas crianças e adolescentes seria contribuir para a constituição de patologias. A superação do que ocorreu se dá no cotidiano das relações, na certeza dos pais, família e comunidade de que as vítimas têm a força necessária para seguir em frente, dar um sentido - através de sua fantasia - para o trauma, por mais violento que ele tenha sido. A atenção às vítimas deve seguir este referencial, com um trabalho cuidadoso de atendimento às crianças e suas famílias, sobretudo para que não se influenciem pelo sensacionalismo da mídia e por tamanha comoção nacional. Os filhos não podem ser tratados como coitados que sofreram um terrível traumatismo, mas como futuros adultos que, como diria o compositor Chico Buarque, "apesar do ´trauma´, amanhã há de ser um novo dia..."

Thiago Costa (thiagoclio80@gmail.com) *
Psicanalista, vice-presidente da Clio-Associação de Psicanálise

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