Na argentina

Vila construída com sonhos e histórias

Ao abrir a aldeia para visitação pública, os proprietários buscaram o equilíbrio entre o turismo e a preservação

00:00 · 02.08.2018 / atualizado às 00:45
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Algumas edificações de Campanópolis fazem referência à arquitetura típica da Europa, como os moinhos holandeses ( Foto: Roberto Lefkovics )

Caminhando por entre as pequenas ruas e passagens, cruzamos com praças bem decoradas com chafariz, bancos antigos e estátuas de ferros centenárias, cercadas por edificações que remetem às histórias infantis. "Vamos esperar um pouco e, quem sabe, Rapunzel não aparece por aquela janela e solta as suas tranças", brinca o guia turístico, Sergio Olivera.

Ele conta que ao abrir a aldeia para visitação pública, após a morte de Campana, os seus filhos tiveram a preocupação de encontrar um equilíbrio entre a prática do turismo e a preservação do lugar. "Precisamos respeitar a essência e o espírito que deixou o seu criador. Buscando, assim, equilibrar o lado comercial e o sentimental", afirma.

> Era uma vez... Campanópolis

Para tanto, as visitas a Campanólopis só acontecem aos sábados das 9 às 13 horas. Durante cerca de duas horas, os grupos percorrem o local acompanhados por guias que contam a história da aldeia, com detalhes sobre algumas construções. O resto de tempo é livre para tirar fotos, revisitar os locais e até fazer piquenique nas áreas livres.

Casinhas do bosque

Saindo da área urbana, com a sua arquitetura eclética e ares medievais, o turista é convidado a entrar na magia das histórias que povoaram seus sonhos de infância, como Branca de Neve e os sete anões. É a zona rural, onde estão as 12 casinhas do bosque.

É o contato mais próximo com uma natureza robusta, repleta de gigantes árvores centenárias que envolvem as pequenas construções de pedras e ladrilhos.

Em meio aquele cenário de filmes de Walt Disney, não é difícil imaginar que um Dunga desajeitado vai cruzar o caminho ou da janela, uma bruxa oferecerá uma maçã a algum turista desavisado. O clima é de conto de fadas.

No fim do passeio, chega-se à Vila Nova, última empreitada de Antonio Campana. Já nos anos 2000, ele usou a sua veia artística para dar vida a edificações que homenageiam o arquiteto catalão Antoni Gaudi, por quem nutria grande admiração. No entorno do rio, encontramos desde casas com chaminés curvas a edificações com cúpulas que lembram os templos russos.

Terapia

Para realizar o seu sonho no tempo de vida que lhe restava, Antonio Campana vendeu parte das suas empresas e passou a se dedicar exclusivamente a este projeto, que foi uma terapia mais eficiente que qualquer remédio: o prognóstico de cinco anos de vida se perdeu em meio à poeira das obras que ele acompanhava diariamente na esperança de ver o seu sonho concluído.

Viveu 25 anos, o suficiente para deixar uma obra valiosa, tanto do ponto de vista estético, da sustentabilidade e do turismo, como, e principalmente, por reunir, em 20 hectares, um importante acervo do patrimônio arquitetônico da Argentina de fins do século 19 e início do século 20.

E assim nasceu Campanópolis, um lugar que não foi pensado do ponto de vista comercial e não está preparado para abrigar morador. Foi, simplesmente, a melhor maneira que um homem encontrou para enfrentar a própria morte: dar vida ao seu sonho de infância (RQ).

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