Turismo religioso

Semana Santa em Quito reforça tradições ancestrais

A capital equatoriana se prepara para celebrar a data em que a religiosidade, arte e cultura se entrelaçam com uma ampla proposta de atividades para viver a fé e as tradições por meio de rituais ancestrais e costumes populares

14:14 · 20.03.2017 / atualizado às 14:15

As charmosas igrejas do Centro Histórico, teatros e centros culturais serão cenários do Festival Internacional de Música Sacra, pai da comemoração, que ocorrerá entre 2 e 9 de abril, com a participação de intérpretes da Espanha, México, Brasil, Argentina, Chile, Estados Unidos, Canadá, Bélgica e nove grupos nacionais.

O Festival já está na 16° edição e, durante esses anos, já apresentou recitais de louvor com melodias do século XVI, obras clássicas e música contemporânea, que transportam a audiência para um espaço de reflexão e introspecção por meio de sons.

No dia 9 de abril, Domingo de Ramos, as cruzes se cobrem de charmosos arranjos florais e, na quarta-feira, dia 12 de abril, começa oficialmente a festa com o “Arrastre de Caudas”, uma das atrações turísticas centrais da Semana Santa, por ser o único lugar do mundo que conserva esse ritual trazido pelos espanhóis de Sevilla. É uma cerimônia de origem militar romana com mais de 500 anos, onde se comemora a morte e ressurreição de Jesus como o “general” morto. Um ato solene cheio de fé e tradição.

“O Arrastre de Caudas” terá lugar em La Catedral, a partir das 11 da manhã e será presidido pelo Arcebispo de Quito, acompanhado por uma comitiva com 24 religiosos. Ao ritmo de uma marcha fúnebre, os cânones e acólitos caminharão e arrastarão as caudas negras simbolizando “o perdão dos pecados”.

Tradição religiosa

Durante a tarde de quarta-feira será realizada a “Procissão da Luz”, uma manifestação religiosa que consiste em um passeio de duas horas pelo Centro Histórico dirigido pelo Ballet Folclórico Jacchigua, na companhia de personagens tradicionais como centuriões, soldados romanos que participam na procissão atrás de judeus; cucuruchos de Sexta-Feira Santa, conhecidos como bonecos que levam nas mãos uma vara que ajuda os penitentes a se sustentar durante a caminhada da procissão; almas santas, personagens conhecidos pelo grande tamanho de cones que usam na cabeça, entre outros, portando lanternas e velas.

A Quinta-Feira Santa, às 18h, se dará início ao “Turismo pelos 7 Monumentos”, uma tradição que contempla visita a sete templos: La Concepción, Santa Clara, Carmen Alto, San Francisco, La Compañía, La Catedral e San Agustín. As igrejas decoram seus altares com telas, damascos, ourives e uma tenda com um cálice no centro,  com hóstias para significar que Jesus foi preso.

Como em todos os anos, milhares de pessoas participaram da procissão “Jesus del Gran Poder” na Sexta-Feira Santa ao meio dia. É uma das maiores manifestações da fé popular que recorda a Via Crucís de Cristo ao Calvário. Os paroquianos, acompanhados de alguns personagens, como os cucuruchos, amas santas, pregoeiros e Santo Sudário resgatam a essência das procissões quitenhas.

Eventos rurais

Ainda, as paróquias rurais ao redor disponibilizarão eventos comemorativos imperdíveis, como a “Procesión de los Diabos”, em La Merced, uma representação dos últimos dias de Jesus, com uma peregrinação acompanhada por personagens que levam em suas cabeças chapéus de 3 a 5 metros de altura; aqueles de cor branca são almas purificadas que já chegaram ao céu e os de cor negra são almas com vergonha que estão purgando seus pecados. A “La Bendición del Fuego”, em Alangasí, é uma festa tradicional que mantém costumes antigos, onde os diabos, ao ouvirem as palavras do sacerdote, saem aterrorizados em direção ao fogo, com o triunfo do bem sobre o mal.

Para complementar a experiência, a organização cultural e educativa Quito Eterno fará visitas guiadas especiais, diurnas e noturnas, com passeios pelas fachadas de igrejas coloniais e visitas a espaços patrimoniais.

Gastronomia

Os visitantes também poderão provar o prato típico da Semana Santa quitenha: as fanescas, um delicioso ensopado preparado especialmente para esta festividade à base de 12 grãos diferentes, uma forma de honrar os 12 apóstolos e as tribos de Israel, enquanto que o bacalhau representa Jesus Cristo e se consume com respeito durante a Quaresma. La Ushucuta é o prato pré-hispânico que deu origem a fanesca, e sua preparação consiste em cozinhar os grãos com abóboras andinas. Com a chegada da evangelização, os grãos do ensopado foram combinados com a contribuição dos conquistadores que incluíram laticíneos e peixes na preparação, tendo este último que ser usado salgado e seco para a conservação. Antigamente, acreditava-se que, se uma família oferece fanesca a outra, não faltariam alimentos durante todo o ano a primeira. Hoje em dia, a fanesca é preparada em todas as partes do país e, apesar do sabor variar de acordo com o local onde é feita, o prato sempre conserva a essência que inclui os 12 grãos tradicionais.

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