Do Plástico ao Pixel

Jogos digitais ou de mesa qual sua escolha?

Jogos de tabuleiro ganham espaço próprio, mas games eletrônicos ainda têm o fascínio nas novas gerações

00:00 · 03.09.2018
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Os jogos de tabuleiros podem ser uma estratégia para socialização maior entre apaixonados por games. O encontro em bares, como há aqui em Fortaleza, ajudam a criar laços fora do mundo digital ( Foto: JL Rosa )
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O excesso do uso de jogos eletrônicos pode acabar atrapalhando o desenvolvimento de crianças e as tirando do convívio social. Pais devem permitir que aproveitem desta diversão sem deixá-las exagerarem ( Foto: Reprodução da Internet )

A palavra 'lazer' remete a uma gama de atividades, tão abrangente quanto os gostos pessoais de cada um. Existe, contudo, uma prática específica que traduz classicamente a diversão durante o tempo livre, associada em especial à juventude: os jogos. Do embaralhar de cartas até a movimentação de pequenas peças em um tabuleiro, e, posteriormente, do manuseio de controles até o pressionar de botões em teclados e mouses. A diversão com regras a serem cumpridas e objetivos a serem alcançados evoluiu gradativamente, e foi submetida a mudanças ainda maiores a partir da década de 1950, quando começaram a ser desenvolvidos os primeiros jogos eletrônicos.

"Jogos de tabuleiro e de cartas eu jogo desde criança. Meu pai sempre gostou de quebra-cabeças e baralho. Já meu irmão e eu gostávamos muito de Banco Imobiliário", lembra a universitária Thamires Stoppelli. Para ela, os jogos virtuais só se fizeram presentes a partir dos 11 anos de idade, quando descobriu Tíbia, que integra o famoso gênero role-playing game (RPG). Hoje, aos 21, a estudante de Direito dedica regularmente algumas horas a League of Legends (LoL) e Fortnite, games que, segundo ela, "não larga mais".

Para o real

O entretenimento nas peças de plástico e papelão não perdeu espaço no tempo livre da jovem. Ela diz gostar de quase todos, encontrando a diversão até mesmo nos mais monótonos. "Prefiro jogos que dependam mais de estratégia do que de sorte. Time Stories é o meu preferido. Ele mistura aventura, raciocínio lógico e tomada de decisões", explica Thamires.

Quando não está em sua própria casa, na companhia dos amigos, Thamires recorre a um vasto acervo, ideal para quem tem o mesmo apego aos jogos de tabuleiro: o Balboa's Hobby & Games, uma das primeiras luderias - local onde se pode comer e jogar simultaneamente - a ganhar popularidade em Fortaleza. O espaço, que começou com 60 exemplares, conta atualmente com cerca de 620 jogos de tabuleiro. "É bacana porque muita gente nem tem acesso à alguns desses jogos por serem muito caros ou por não saberem jogar. É uma ótima maneira de apresentar aos outros", diz o fundador do Balboa's, Pedro Parente, de 31 anos. A luderia conta ainda com monitores que ensinam a jogar e indicam os melhores produtos de acordo com o interesse dos clientes.

Thamires ressalta seu apreço pelos exemplares em tabuleiro, destacando o fato de ser físico e poder ser levado para jogar em qualquer lugar. "É algo que precisa de outras pessoas ali, aproveitando o momento, a socialização", destaca.

Mesmo com o apego, a universitária admite: "se eu tivesse que escolher entre jogos online e de tabuleiro, eu ainda preferiria os games online por dois fatores principais: um, você pode jogar sozinho, sem depender dos outros. Você não está restrito aos horários e à disponibilidades das pessoas. É só acessar o computador e pronto", explica.

O outro fator, segundo ela, é a continuidade característica dos jogos online. O começo, meio e fim da partida, característica dos jogos de tabuleiro, opõe-se à possibilidade de evoluir e seguir adiante, oferecida por games eletrônicos. "Apesar de as partidas serem desconexas, você vai melhorando suas habilidades", conta a jovem Thamires.

A preferência pela diversão através das telas não deve ser uma surpresa. De acordo com o psicólogo, professor do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor) e doutor em Ciências Médicas, Tauily Taunay, os jogos eletrônicos são mais preferidos em função da sua dinâmica, por interagirem com a pessoa que está jogando e apresentarem mais cores, movimentos, desafios crescentes e recompensas. O jogador acaba tendo, então, um engajamento maior, que torna a experiência mais dinâmica e mais divertida.

Comportamento tóxico

O professor destaca a crescente popularidade dos jogos do tipo MOBA (Multiplayer Online Battle Arena), "arenas de batalha online para vários jogadores", em tradução literal. A plataforma permite aos jogadores interagir com usuários de diferentes países através dos personagens, buscando estratégias de cooperação, vencendo e sofrendo derrotas. Tais games, de acordo com Taunay, têm movimentado um mercado bilionário no mundo, com campeonatos que envolvem títulos e premiações de até US$ 1 milhão, criando um 'clima' para além do jogo.

"Acaba tendo, também, um risco. São pessoas reais do outro lado, e tem a questão do anonimato e da disputa. Nós sabemos que o ser humano com algumas frustrações pode querer despejar sua agressividade no personagem, que é sentida como uma agressão contra a pessoa. Nós sabemos de várias formas de preconceito manifestadas nesses jogos, e isso é um problema sério causador de estresse nesses jovens, e que pode ocasionar algumas consequências mais drásticas. É o que nós chamamos de 'comportamento tóxico' no ambiente virtual", revela o professor da Unifor.

Os jogos eletrônicos são descritos pelo psicólogo como "mais típicos da nossa juventude contemporânea", quase como uma etapa de transição. Segundo ele, dependendo do incentivo da família, as crianças acabam não tendo contato com jogos de tabuleiro e se voltam aos eletrônicos, que são presença constante entre os jovens. "Acaba sendo um público que se beneficia, de certa forma, por estimular o aparato cognitivo, o processo decisório, atenção, aspectos visoespaciais, de distância, coordenação visomotora", explica o professor Taunay.

Convívio social

Por outro lado, Taunay ressalta que o excesso de uso desses jogos faz com que as crianças se afastem do convívio social e deixem de treinar o 'olho no olho'. "Quando a criança passa o dia inteiro jogando, viciando o cérebro naquele ambiente, acaba 'destreinando-o' para interpretar faces humanas, o que é essencial para inteligência emocional", afirma.

A recomendação que o professor dá para os pais é limitar o tempo de acesso de seus filhos aos jogos eletrônicos. Nos demais momentos, é importante estimular o raciocínio e a interação, através de esportes ou até de jogos de tabuleiro, além de conversas e, se possível, passeios ao ar livre. O objetivo é não deixar os jovens tempo demais com os eletrônicos.

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