Testamos

Far Cry 5 traz reflexões políticas

Título da Ubisoft ousa e acerta em cheio em temas atuais e difíceis de serem abordados no mundo dos games

00:00 · 30.07.2018 por Áquila Leite - Repórter
Você não estará sozinho e terá ajudantes durante a jogatina. Estes arautos terão como missão dar suporte nas missões. Porém, para tê-los, você terá que desbloqueá-los ao longo do game. São 9 ao todo. ( Fotos: Reprodução Internet )

Existem assuntos extremamente delicados de serem abordados no ramo do entretenimento, e a religião é, sem dúvida, um dos grandes exemplos. Por isso, quando a Ubisoft anunciou, em maio de 2017, que o novo título da saga Far Cry abordaria o fanatismo religioso, ainda mais em uma cidade dos Estados Unidos, que enfrentava um conflito ideológico desencadeado pela recente eleição de Donald Trump, não faltaram críticas à desenvolvedora, que foi alvo até de uma petição online cobrando mudanças no game. Felizmente, os roteiristas não se intimidaram e mantiveram o tema de Far Cry 5, lançado no último dia 27 de março para PlaysStation 4, Xbox One e Microsoft Windows, e que acertou em cheio ao trazer algumas reflexões bastante atuais.

Diferentemente dos títulos anteriores, ambientados em locais mais exóticos e remotos, como ilhas paradisíacas e montanhas do Himalaia, Far Cry 5 se passa no fictício condado de Hope County, no estado norte-americano de Montana, onde Joseph Seed, um pregador radical que se diz escolhido por Deus, assume o controle da região e isola completamente a população local do resto do País, utilizando sua seita cristã para punir violentamente todos os seus opositores. Ao ficar sabendo da situação, a polícia envia uma força-tarefa para prender Joseph, ficando o jogador no papel de um ajudante de xerife que faz parte da equipe. Obviamente a missão se torna mais difícil do que o esperado e precisamos enfrentar situações perigosas, angustiantes e até mesmo pitorescas (marca registrada da franquia) para conseguirmos confrontar Seed.

Jogabilidade

A jogabilidade em si pouco muda em relação aos outros jogos da franquia, já que o game se passa em primeira pessoa e dá ao jogador um extenso inventário de armas, itens e veículos – incluindo aeronaves – para que seja feita a exploração de Hope County. O mapa é divido em três regiões principais, cada uma sob o controle de um dos irmãos de Joseph, chamados de “arautos”. O trio possui personalidades diferentes e proporciona momentos de muita tensão ao jogador, que pode escolher livremente a ordem que quer encará-los. São eles: Jacob, um ex-militar que possui os métodos mais violentos; Faith, uma mulher sedutora e persuasiva que literalmente faz uma “lavagem cerebral” em seus subordinados; e John, o mais paranoico e rico da família, que usa do poderio financeiro para tomar posse de terras e bens da população.

A exploração, inclusive, sempre foi uma das partes mais legais de Far Cry, que neste título traz uma experiência ainda mais imersiva, já que a Ubisoft abriu mão das tradicionais “torres” de seus games, que revelam parte do mapa ao serem escaladas, e resolveu deixar nas mãos do jogador toda a descoberta da região. Quer ir para a o ponto Extremo Norte? Fique à vontade, mas se prepare para percorrer milhas e milhas de rios, montanhas, fazendas e vegetação, que fazem você se sentir, de fato, em uma das tradicionais cidades do interior dos Estados Unidos, com o adendo de que há um culto apocalíptico religioso e militar procurando por você a cada passo. Nesse aspecto, a adição de aviões e helicópteros ao gameplay é altamente bem-vinda.

A dica é não ter pressa. A ambientação é fantástica e Hope Country está cheia de pessoas precisando de ajuda, o que abre espaço para diversas missões secundárias, que certamente aumentarão bastante as horas de gameplay. Nem todas são interessantes e muitas podem soar repetitivas, mas descobrir cada cantinho da região é fascinante e fundamental para desbloquear armas e veículos que o auxiliarão na jornada. Cansou? Então é só parar às margens de um rio e iniciar uma relaxante pescaria que provavelmente será interrompida por troca de tiros e gritaria.

Você não está só

Se Joseph Seed possui seus “arautos” para ajudarem em seus planos, o jogador também não fica para trás no quesito. Isso porque é possível desbloquear, no decorrer da história, até nove aliados que vão acompanha-lo durante a jornada. Só dá para controlar dois ao mesmo tempo, mas como cada um possui personalidade própria e comentários únicos, o jogador pode escolher com quem mais se identifica e torna-lo mais frequente na equipe. Eles também possuem estilos de combate diversificados, variando da furtividade à explosão, o que aumenta as possibilidades de abordagem nas variadas situações de conflito que serão encontradas pelo protagonista.

Se existe um lado ruim nos aliados, é que a participação deles é praticamente nula quando se trata das missões principais, com exceção da última missão do jogo. Cria-se um vínculo, empatia, mas na hora do ‘aperto’ eles simplesmente são retirados da história e impedidos de serem convocados, o que torna algumas situações meio frustrantes. Neste aspecto, os antagonistas são muito mais marcantes, como já é tradição na franquia Far Cry, o que fica ainda mais imersivo com o ótimo trabalho de dublagem feito para o game, totalmente traduzido para o português.

Veredito

Far Cry 5 é um jogo atual, crítico, controverso, e que traz reflexões importantes sobre as consequências do fanatismo religioso e do extremismo político na atualidade. Os jogadores mais sensíveis certamente ficarão incomodados em vários momentos do gameplay, que não tem restrições em mostrar até que ponto as pessoas podem chegar por suas crenças e convicções. O game possui dois finais possíveis, que fogem dos clichês esperados para um jogo de ação, além de um desfecho secreto que pode ser desbloqueado logo nos 10 primeiros minutos. Se até hoje os fãs consideravam Far Cry 3 o melhor título da franquia, pode-se dizer que o posto já está seriamente ameaçado.

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