Batalha virtual

´Cyberwar´ é a guerra fria dos novos tempos

02:12 · 06.08.2012
Os soldados truculentos e armados dão lugar aos nerds da cibersegurança no novo cenário de disputa entre nações

Recife Quem você acha que será o guerreiro do novo milênio? Um brutamontes truculento das forças armadas ou um nerd da cibersegurança? Este foi o questionamento feito pelo especialista em segurança e professor universitário de perícia forense digital, Sandro Süffert, durante sua participação na Campus Party Recife, evento que reuniu usuários de internet e amantes de tecnologia, no final de julho, na capital pernambucana.

Para Sandro Süffert, o ciberespaço já é entendido como "o quinto domínio" que - assim como a água, a terra o ar e o espaço - deve ser defendido como parte da soberania de um país Foto: Levi de Freitas


Falando sobre "Ciberguerra e ciberespionagem", Süffert diferenciou os tipos de conflitos que ocorrem na rede e que compõem o universo balístico desta nova guerra digital. Nesta batalha virtual, as bombas e balas de canhão são a informação e o conhecimento. "A munição no ciberespaço é a informação e o conhecimento do inimigo", afirmou o especialista em cibersegurança.

O ciberespaço, na verdade, já é considerado um "quinto domínio", de acordo com o próprio palestrante. Para ele, o domínio digital completa a água, terra, ar e espaço, e deve ser defendido - assim como um alvo - tal e qual os demais já conhecidos, como símbolo de soberania do Estado.

Süffert deixou claro, entretanto, que é necessário pensar em proteção, ligando-a sempre ao conhecimento, principalmente de quem se está combatendo ou de quem se está defendendo. "É impossível investir somente em proteção e achar que com isso tudo estará resolvido. É preciso conhecer o inimigo para ter mais chances de vencer a guerra", frisou. Ele embasa seu argumento em uma citação de trecho do clássico "A arte da guerra", do general estrategista chinês Sun Tsu: "Quem conhece a si e a seu inimigo lutará até cem batalhas sem jamais conhecer a derrota" - palavras que vêm à tona mais de 2.000 anos depois da morte do general e que se tornam tão atuais no contexto sugerido por Sandro Süffert.

Mais uma vez, no centro desta guerra fria, encontram-se os Estados Unidos. Desde 2006, o governo americano (à época, comandado por George W. Bush), não dispensa esforços em ciberespionagem. E, se conheceu vitórias, também já teve baixas significativas.

Sem tiro

Süffert cita o caso que ficou conhecido como "Joint Strike Fighter", em 2009. Naquela ocasião, os Estados Unidos encomendaram uma frota de caças a uma empresa britânica, em um projeto ultrassecreto que custou US$ 300 bilhões aos cofres do Tio Sam. Entretanto, alguém conseguiu ter acesso a este projeto, invadindo os computadores da empresa.

Com o vazamento do projeto bilionário, os Estados Unidos acabaram desistindo de utilizar aqueles caças. "O invasor conseguiu derrubar cerca de 2.500 jatos americanos sem precisar disparar nenhum tiro", avalia o especialista.

Mas os Estados Unidos não conheciam seu inimigo? Na visão do especialista, nem mesmo eles, a América, estão preparados para esta batalha virtual. "A segurança é um campo tão amplo que nem mesmo os Estados Unidos têm pessoal com capacidade para atuar em todas as áreas", opinou.

Outro caso emblemático neste novo cenário ocorreu no Oriente Médio e foi batizado de "ThunderStruck". Neste último mês de julho, em uma estação que trabalhava para o programa nuclear iraniano, houve uma invasão em que todas as máquinas que tinham placa de som tocaram, ao mesmo tempo e no volume máximo, a canção "ThunderStruck", da banda AC/DC. Como a grande maioria dos ataques, a autoria deste ainda é desconhecida.

Defesa brasileira

Nosso pacífico país também já se movimenta e se preocupa com a questão da segurança na rede. "O Brasil já está entre os 20 países que se preparam para defender ataques cibernéticos", afirma Süffert. Em 2010, o Ministério da Defesa criou o Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), para monitorar e defender nosso espaço cibernético de qualquer atividade. E vale destcar que isso foi feito em parceria com o governo norte-americano.

E quem será o guerreiro do futuro? O soldado armado com seus rifles ou o nerd armado com seu notebook? A bomba atômica venceu a última guerra, mas um vírus de computador pode ser o estopim para outra próxima.

*O repórter viajou a Recife a convite da Vivo

LEVI DE FREITAS*
ESPECIAL PARA O TECNO

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