Avoante Aeromec

Alunos projetam aviões não tripulados no Ceará

Projeto de extensão faz parte do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Ceará

As aeronaves são construídas pela equipe do projeto em duas semanas. O que mais demanda tempo é a construção das asas devido ao tamanho e aos detalhes
00:00 · 16.04.2018 / atualizado às 02:21 por Jacqueline Nóbrega - Repórter
Atualmente a equipe do projeto Avoante Aeromec é composta por 20 membros. Anualmente acontece um processo seletivo para os interessados no trabalho

Estudantes dos cursos de engenharia, física e matemática da Universidade Federal do Ceará (UFC) têm a oportunidade de desenvolver aeronaves não tripuladas em um projeto de extensão do Centro de Tecnologia da instituição de ensino. 

O Avoante Aeromec nasceu nos anos 2000 com o objetivo de participar da competição nacional de Aerodesign, chamada de SAE Brasil de AeroDesign, que acontece anualmente na Embraer em São José dos Campos (SP), a fim de expandir os conhecimentos em Aeronáutica. Thiago Teodosio, de 23 anos, estudante de engenharia mecânica, participa do projeto desde 2015 e hoje é um dos líderes administrativos. “O objetivo final é desenvolver a aeronave para a Competição SAE Brasil Aerodesign, mas até chegar a esse objetivo nos organizamos no início do ano. Traçamos nossos objetivos estratégicos, planejamos exatamente o que devemos fazer e onde queremos chegar, para que esse objetivo final seja alcançado com êxito. Participamos apenas dessa competição e todas as aeronaves que projetamos foram com o intuito de participar da SAE, sejam elas protótipos para testes ou aeronaves principais”, comenta.

O professor Claus Wehmann, um dos orientadores do projeto, complementa: “Os estudantes são estimulados a desenvolverem aptidões importantes em suas futuras carreiras: liderança, espírito de trabalho em equipe, planejamento e capacidade de vender projetos e ideias. Essas aptidões são incorporadas aos projetos visando sua praticidade e funcionalidade, os quais variam desde o uso de novos materiais a sistemas mecânicos de otimização de voo”. Este ano, eles participam da competição de acesso para a edição presencial da SAE Brasil de AeroDesign, que acontece em 2019. As inscrições para o torneio começam em 24 de abril. “Uma observação é que o torneio de acesso não é presencial. A análise da aeronave é feita por vídeo e o envio das plantas do projeto”, explica Claus. 

Inclusive testes de voo são feitos, já que um vídeo do avião em voo deve ser apresentado. Atualmente com 20 membros, Thiago frisa que dentro do Avoante Aeromec eles projetam a aeronave do zero. Elas são construídas baseadas nas restrições geométricas impostas pela competição. “Uma das restrições é que a envergadura da asa deva ter no máximo 1,60m, e que diante dos motores especificados no regulamento nossa aeronave seja otimizada para que consiga carregar a maior quantidade de peso possível e que seja o mais leve possível. Esse fator é chamado de eficiência estrutural, portanto estamos atualmente finalizando nosso projeto da aeronave de teste para captação de dados e a previsão é que iniciemos a construção dela em breve”, explica o professor universitário.

Thiago e Claus comentam que geralmente a aeronave é construída em duas semanas. O que mais demanda tempo é a construção das asas, por serem maiores e terem mais detalhes.

Geralmente, por ano, uma aeronave é desenvolvida no projeto de extensão, mas em 2018 duas, pelos menos, serão construídas. “A aeronave de teste está sendo feita para implementar novos materiais e metodologias de cálculo e construção”, diz Claus, que enumera quais tipos de tecnologias são utilizadas em projetos como esse: “Desde softwares de simulação, nos quais as estruturas são projetadas, ou o comportamento das asas são estudados; até equipamentos de fabricação automatizada como impressoras 3D, cortadoras a laser, etc. No entanto, parte da construção ainda é artesanal, uma vez que o projeto muda a cada edição”.

Ele ainda pontua que muitas das tecnologias que conhecemos hoje nascem dentro das universidades e de institutos, criando um ciclo de desenvolvimento contínuo. “As novas tecnologias estão alterando a forma como fabricamos, construímos e desenvolvemos novos produtos. Hoje já é possível ‘imprimir’ um motor foguete, por exemplo. Estas tecnologias também estão mais acessíveis. Atualmente é muito mais fácil adquirir equipamentos como corte a laser e impressoras 3D do que no passado. Já softwares especializados para simulação de comportamento de estruturas ou de escoamento de fluidos permitem o barateamento de projetos. E a multidisciplinaridade é uma situação cada vez mais presente em qualquer ambiente de desenvolvimento de engenharia. Todas essas tecnologias e novas condições precisam ser consideradas na formação dos profissionais. Então, sim, a tecnologia e as engenharias caminham juntas interagindo a todo momento”. Claus Wehmann ainda comenta que se comparamos o Ceará com outros estados das regiões Sul e Sudeste, ainda estamos atrás no ramo da engenharia aeronáutica. “Mas não é devido a falta de cérebros, afinal boa parte dos ingressantes em institutos renomados nesta área é oriunda do nosso estado. No entanto, a ausência de infraestrutura, empresas e de linhas de pesquisa na área limitou o desenvolvimento local. Ações recentes têm procurado mitigar essas ausências, como, por exemplo, o mestrado profissional da parceria UFC-Instituto Tecnológico de Aeronáutica e o investimento em infraestrutura como o túnel de vento da Universidade Estadual do Ceará, que apesar de ser destinado a estudos de aerogeradores, poderia ser também utilizado em desenvolvimentos aeronáuticos”. 

“Nós da equipe Avoante trabalhamos arduamente para trazer resultados e mostrar nacionalmente que temos potencial para desenvolver a engenharia aeronáutica aqui no nosso Estado”, acrescenta Thiago.

O professor Claus ainda ressaltou que a UFC já tem o curso de engenharia aeronáutica aprovado pelo Ministério da Educação, que ainda não foi implantado devido a restrições de orçamento e questões burocráticas.

Processo seletivo

Thiago explica que o processo seletivo para os interessados em participar do Avoante Aeromec é de acordo com a demanda da equipe. “O processo seletivo é realizado em três etapas. A primeira consiste em uma prova sobre conhecimentos básicos de aeronáutica. Essa etapa não é excludente, porém serve de base para a etapa seguinte do processo. A segunda consiste em uma competição de planadores. Nesse momento, os veteranos da equipe se dividem em duplas de mentores para cada equipe formada a fim de avaliar o desempenho dos participantes. Essa etapa dura uma semana e é dividida em projeto e construção do planador”, explica. 

“Vale salientar que é nessa etapa que a equipe consegue avaliar a capacidade dos participantes de trabalhar em equipe e com prazos curtos, resiliência, conhecimentos técnicos, dedicação, postura e profissionalismo. Aqueles que obtiverem o melhor rendimento e que estiverem de acordo com os valores da equipe serão os escolhidos para a terceira fase, a entrevista”.

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