Um projeto de simplicidade e a construção de um gênero - Ler - Diário do Nordeste

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Rubem Braga

Um projeto de simplicidade e a construção de um gênero

22.10.2005

Há 15 anos o jornalismo brasileiro não conta mais com a perspicácia e o talento de Rubem Braga, considerado o criador da crônica moderna. O autor é objeto de estudo no Rio de Janeiro e no Ceará, onde a jornalista Ana Karla Dubiela esmiúça a crítica social que o escritor capixaba brindava a seus leitores em seus textos irreparáveis. A pesquisa no Rio de Janeiro já rendeu um livro, lançado na última terça-feira. No Ceará ele é objeto de pesquisa e ainda poderá render uma obra literária também.

O caderno Cultura presta hoje esta homenagem a Rubem Braga, revelando aos leitores aspectos pitorescos de sua vida e traz também um texto inédito de outro livro que será lançado no ano que vem, a primeira biografia do escritor. O amigo de Braga, Affonso Romano de Sant´Anna também escreve sobre um dos últimos contatos com o vizinho sobre uma de suas paixões, os pássaros e mostra fotos inéditas na imprensa cearense da cobertura onde o cronista viveu muitos anos no aprazível reduto carioca de Ipanema.

Ana Karla Dubiela
Especial para o Cultura

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? (...) Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? (...) Por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas? Mas para instaurar outra vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... (Crônica ´Um Sonho de Simplicidade´, do livro A traição das Elegantes).

A preocupação urbana, ou melhor, o olhar livre de flaneur, obrigatório a todo bom cronista, é apenas uma das facetas do capixaba Rubem Braga que, volta e meia, também traz à tona a vivência na zona cafeeira do Espírito Santo. Dividido entre a roça de sua infância, a cidade que adotou, o Rio de Janeiro, e os cargos que assumiu no exterior, Rubem Braga traçou para si um sonho de simplicidade. Seu apartamento de cobertura em Ipanema era um refúgio das buzinas, dos camelôs e outros sons urbanos, com o jardim suspenso e a criação de pássaros, que traziam a falsa e grata impressão de que aquele mar imenso lá embaixo estava a quilômetros de distância.

O lugar em que vivia era a esquina entre a roça e a cidade. Abrigava também ´a inquietação das madrugadas urbanas´, o uísque e o cigarro, as conversas frouxas, os petiscos no meio da noite, um ou outro entrevero entre os mais entusiasmados pelo álcool, o vazio do dia seguinte. Assim, tentava livrar-se do incômodo de ´dizer coisas´ e viver do ´comércio de pequenas pilhas de palavras´, diária e religiosamente, a pretexto do que quer que fosse, com o mesmo prazo de entrega do texto. E livrar-se da insônia que o atormentou a vida inteira, com a velha máquina de escrever Hermes Baby como companheira de infortúnio.

A clareza e a simplicidade da crônica têm raiz no ofício que a originou: o jornalismo. No seu primeiro emprego como repórter, ainda menor de idade, Rubem Braga adotou a maneira jornalística de retratar o real: direta, precisa, desadjetivada, obediente à ordem de importância dos fatos, submissa ao ´lead´, restrita aos acontecimentos. Via de regra, nada seria menos poético ou literário.

A crônica surge, então, como uma libertação da rigidez da técnica jornalística. Um desafogo. Uma arte de sobrevivência. Como forma fronteiriça, o gênero passeia nos cantos mais recônditos da língua, e namora o conto, a poesia, o ensaio. Solta-se das amarras do ´lead´ e se detém no fragmento esquecido pela matéria de jornal, na subjetividade, no sentimento e na crítica. A crônica, para um repórter, é como um respiradouro da notícia. Em Braga, esse respiradouro é enriquecido pelo ar poético com que oxigena o texto - o que se tornou uma das mais nítidas características da prosa braguiana.

A instantaneidade original da crônica, que faz João do Rio denominá-la de ´gênero gêmeo à cinematografia´, a conquista da posteridade através dos livros e sua dimensão como gênero literário são elementos que acirram a construção de um debate. É fato que a voz da crônica, tímida figurante de fundo de palco, aos poucos toma de assalto o espetáculo e encanta o público, garantindo um lugar na cena literária brasileira. Um bom exemplo é a receptividade da série Para gostar de ler, nos anos 1970.

Do ´rés-do-chão´, ou seja, do canto inferior da página dos jornais que lhe era reservado semanalmente, na imprensa do século XIX, ela alça vôo, independente da dificuldade dos teóricos em classificá-la. Nasceu com um hibridismo crônico, assumiu a ambigüidade e, enfim, ganhou o status de gênero literário tipicamente brasileiro. As 15 mil crônicas de Rubem Braga certamente impulsionaram esse processo.

Ana Karla Dubiela é jornalista, especialista em Literatura e Estudos Culturais pela UFC - Universidade Federal do Ceará e mestranda em Literatura Brasileira, com pesquisa financiada pela Funcap. Este texto é um recorte da pesquisa: ´´A traição das elegantes´´ pelos ´´Pobres homens ricos´´ - uma leitura da crítica social em Rubem Braga, que pode ser encontrada no Departamento de Letras da UFC e na Casa Fundação de Rui Barbosa (RJ).

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