O Padre Quinderé - Ler - Diário do Nordeste

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Perfil

O Padre Quinderé

22.12.2007

José Alves Quinderé - o Padre Quinderé - foi uma das figuras mais populares e admiradas de seu tempo. Ordenado em 1904, exerceu importantes cargos na administração da Igreja, bem como se destacou, também, na política partidária, tendo sido, por duas vezes, conduzido a uma Cadeira na Assembléia Legislativa de nosso Estado. Inscreveu, também, o seu nome nas áreas da Educação e da produção literária. Nessa edição, traça-se um breve perfil desse homem e de seu tempo.

O inesquecível - José Alves Quinderé - mais conhecido Padre Quinderé - nasceu em Maranguape no dia 1º de Janeiro de 1882, e, se vivo fosse, teria hoje 125 anos, cujo sesquicentenário ocorrerá no ano da graça de 2032 (dois mil e trinta e dois). Filho de João Gualberto Quinderé e Josepha Pinheiro Muniz Quinderé, naturais ele do Aracati e ela de Juazeiro, Estado da Bahia. São seus avós paternos: Antonio Alves Pinheiro de Mello Quinderé e Innocencia Pinto de Oliveira Quinderé; e maternos: Raymundo Muniz dos Reis e Anna Angélica Pinheiro Muniz; bisavós paternos: Antonio Alves de Mello e Anna Pereira de Mello, e maternos Luiz Pinto de Oliveira e Margarida Pinto de Oliveira, do Aracati; bisavós maternos: Antonio Valladão e Anna Pinheiro (Inhamuns); e paternos: José dos Reis e Thereza Muniz, Filha de Antonio Muniz Barreto, fidalgo português que veio ao Tauhá via as terras da Bahia.

Movido por circunstância do destino, por ser predestinado por Deus, ainda adolescente, encaminhou-se ao Seminário Episcopal de Fortaleza, atendendo à latente vocação para o serviço de Deus.

Compreendeu-o, num relance, o Reitor Júlio Simon, matriculando-o, então, naquela casa de ensino sacerdotal, cuja educação foi custeada pela Irmã Teresa Gagné, Superiora do Colégio da Imaculada Conceição. Ordenou-se em 1904, vindo a exercer o cargo de secretário particular, servindo aos bispos D. Joaquim José Vieira e D. Manuel da Silva Gomes.

Em 1910, foi nomeado professor de Latim do Liceu do Ceará, e, com seus colegas Padres Misael Gomes da Silva e Climério Chaves, fundaram em 1913 o Colégio Cearense o qual, desde 1916, vem sendo dirigido pela Ordem dos Maristas.

Exerceu ainda as funções de Secretário-Geral do Bispo de Fortaleza, notabilizando-se pela estima popularidade em que viveu. Em 1920, foi agraciado com o título de cônego, e, com o de Monsenhor, em 1929.

Deputado à Assembléia Legislativa do Estado, em duas legislaturas, mantendo na vida pública, qual na apostólica, o mesmo, aprumo moral, com sua verve e sua alegria e o tom conceituoso e franco da sua palestra envolvente e apreciado por todos aqueles que o conheciam.

Iniciou-se no campo das letras escritas preparando para o livro O Ceará, 1939, de Raimundo Girão e Antônio Martins Filho - a capitulo História Eclesiástica do Ceará no que revelou aprumo lingüístico e, sobretudo em estilo ameno e acolhedor. Publicou as seguintes obras: Ano Litúrgico, 1940; Palavras da Vida Eterna, 1944; Sinal Sensível, 1947; A mais Antiga Constituição, 1951; Vida de D. Joaquim José Vieira, 1947; Vida de Santa Filomena, 1956; Reminiscências, 1957 e 2ª Edição 1974. - Dicionário da Literatura Cearense, pág. 193.

No anedotário cearense ninguém excedeu ao mais picante poeta e repentista Quintino Cunha e nem superou o fino humor ortodoxo do Monsenhor Quinderé - duas figuras excepcionais, amadas por todos quanto os conheciam, pelo talento, cultura e carisma que ornavam suas personalidades nos meios intelectuais.

Conheci o querido Monsenhor Quinderé na minha juventude quando funcionário da Prefeitura Municipal. Ele se encarregava do pedido da concessão de isenção do Imposto Predial do imóvel de propriedade de sua cunhada D. Marieta, ocasiões em que tivemos a feliz oportunidade de conversar sobre amenidades e das coisas folclóricas do cotidiano.

Por ser naturalmente carismático, agradável, de cativante simpatia, levava grande vantagem no it pessoal, e ser extremamente bondoso. Era na realidade um predestinado por Deus, eleito para a prática de sublimes ações. Por onde passava era cortejado, e sua presença irradiava, transmitindo momentos alegres, suavizados por humor aos circunstantes que ficavam estáticos para admirar a narração de tudo a que se propunha transmitir. Era a docilidade que se aninhava no seu peito para dizer de viva-voz recados do Céu, e convencendo pela palavra divina que o tornava cada vez mais mensageiro da paz entre pecadores.

Por isso, não se desnaturava a verve latente do seu ego porque o aproximava mais das coisas celestiais. Talvez era essa maneira de conquistar os fiéis ao apostolado das coisas por Deus a ele tão confiadas.

Embora, pudesse transparecer, aos menos avisados, uma personalidade de temperança imoderada, diante de sua veia satírica, ao contrário, era de doce sensibilidade e desprovido de concupiscência.

Assim é que, certa vez, segundo dizem tripudiando do seu humor, certa pessoa, em tom de gracejo indiscretamente indaga: Padre Quinderé dizem que o senhor gosta muito de mulher?

Sentindo a maledicência da pergunta, respondeu com fina ironia: E também de manga, Mas sou proibido de chupar... porque faz mal!

De outra feita alguém perguntou: - Padre Quinderé, dizem que no Cine Diogo - quando começa rodar o filme, peito de moça vira buzina? É verdade? De pronto retrucou: Pelo que sinto, você é que está ficando surdo ou cego. Mas suponhamos ser verdade; noto que o amigo está despeitado e com inveja, cometendo um dos sete pecados capitais, ou, porque não pode fazer o mesmo...

Por ocasião da inauguração do Edifício onde funcionaria o Jornal ´A Noite´, Padre Quinderé estava no Rio de Janeiro e foi convidado para solenidade onde compareceram vários cearenses ilustres; e, dentre as figuras presentes, destacou-se uma jovem que observava a paisagem próxima ao parapeito da sacada do edifício e, admirando a altura do prédio, em tom de brincadeira, disse: Padre Quinderé vamos morrer juntos? Ele respondeu de chofre: Não, vamos viver juntos, que é melhor.

Diante do que se comentava sobre os ditos proferidos em roda de amigos, por serem picantes, fesceninos ou mesmos obscenos, foi certa vez chamado pelo Arcebispo D. Manuel, na certeza de que lhe iria fazer alguma advertência sobre o que se propalava a seu respeito - dele, o Padre - na Cidade sobre anedotas por ele proferidas.

A certa altura da conversa, ponderou: Quinderé, por algumas vezes chegam ao meu conhecimento, que você é uma pessoa alegre e muitas vezes em conversas com amigos conta certas anedotas consideradas íngrimes ou licenciosas, não condizentes com o comportamento de um sacerdote, chegando às arras por ausências dos princípios ortodoxos, caindo na leviandade admitidas por maldade humana comprometendo-lhe o comportamento, que poderá torná-lo uma pessoa comum diferente das pessoas sublimadas a Deus!! Têm fundamento isso?

Não sei, Eminência. Dizem que sou espirituoso e brincalhão. Mas não acho nada disso Sr. Arcebispo. O Ceara é terra de muro baixo. Vossa Reverendíssima não sabe por que não é natural daqui. - Mas, a propósito, também me vieram dizer que Vossa Reverendíssima quando viaja à Bahia, vai ao encontro de uma sequiosa penitente; isto sei não ser verdade, porque o conheço bem o seu irreprochável comportamento. Diante da afirmação o Arcebispo - respondeu: Você tem razão Quinderé, esse Ceara é mesmo terra de muro baixo... Faça de conta que nada conversamos...

De outra feita, assim, interpelaram-no: É verdade que no Céu não entra padre, nem cão do inferno? É. No inferno, só cão; e no céu, nós.

Zenilo Almada
Advogado



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