Anedotas e repentes do Padre Quinderé - Ler - Diário do Nordeste

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Donatário do Riso

Anedotas e repentes do Padre Quinderé

27.11.2004

Padre Quinderé - homenageado pela escritura de sua sobri-neta Fernanda, num flagrante quando ainda bastante jovem, caminhando muito sorridente, descendo por uma rua de Fortaleza
Padre Quinderé - homenageado pela escritura de sua sobri-neta Fernanda, num flagrante quando ainda bastante jovem, caminhando muito sorridente, descendo por uma rua de Fortaleza
Reprodução
N´O Apóstolo da Alegria, a autora diz que os Quinderé são viajantes, eternos andarilhos, profundamente leais aos seus sentimentos. São donatários do riso, da ironia inteligente e de mãos habilidosas no trato das artes. E segue: a família é do Aracati, primeiro porto do Ceará, unida aos que chegaram pela Bahia, primeira capital do Brasil. Bahia e Ceará cidades nascidas no Brasil sob ordens portuguesas, batizadas pelo sal dos mares, estuprados por viajantes loucos que, em suas fúrias, teciam tramas e destinos. Ancoravam suas naus nas águas, cujas espumas lambiam nossas areias para construírem suas arenas, derrubando nossas árvores, comendo nossos frutos, nossos peixes, levando nossa riqueza. Artimanhas dos homens enviados por rainhas e reis que governavam sob a ordem de valores difusos anárquicos e gananciosos. Nossos antepassados, personagens da nossa história, se uniram, se amaram para nos doar seus sangues. Presenciaram a cerimônia das invasões contemplando os caminhos de fogo traçados entre o mar e as fortalezas que se construíam para desfazer as entradas triunfais de novas esquadras repletas de tropas invasoras e inimigas.

Assim passou o tempo e desse caleidoscópio de imagens chegamos ao século XIX. O Seminário da Prainha, fundado no dia 18 de outubro de 1864, por Dom Luiz Antônio dos Santos, já tinha 40 anos quando Dedé ordenou-se em 30 de novembro de 1904, aos 22 anos de idade.

O Padre Quinderé passou então a ser um homem do clero, mas isso não significou perder o bom humor ou a genialidade para os repentes ditos espontaneamente. Eles remontam à antologia das anedotas cearenses de décadas atrás, confirmando a vocação humorística da nossa gente. O Padre Quinderé pode ser classificado à altura de outros famosos personagens de grande verve como, Quintino Cunha, Manezinho do Bispo, Leonardo Mota e Plautus Cunha.

Fernanda Quinderé escreve: ´Suas irmãs comentavam e Dedé confirmava: ´O João Quinderé, meu irmão, viu a Marietta pela primeira vez na igreja do Patrocínio quando eu celebrava na paróquia como padre coadjutor. Apaixonou-se por sua beleza, passou a observar seus hábitos até pedi-la em casamento´.

Na sala de sua casa, seu corpo foi velado e encomendado por Dedé que, em seguida, ficou em estado de choque. Falava compulsivamente, característica que não lhe era comum. telefonava para os amigos e dizia: ´A Marietta está aqui, na sala, encaixotada´.´

Dedé celebrou sua última missa na manhã do dia 11 de maio de 1960, três meses e meio antes de morrer.

O padre foi um dos principais responsáveis pela construção da catedral metropolitana. ´Numa das inúmeras declarações feitas à imprensa, Dedé abriu seu coração referindo-se à luta para conseguir erguê-la através de doações e poucos recursos:

´Quero ter a sorte dos alicerces: eles desaparecem sob o esplendor arquitetônico dos grandes edifícios. Vou ficar como os alicerces da Catedral. Ninguém falará deles´.

Ainda no seminário, no fim do primeiro ano letivo, ao despedir-se do Reitor, foi o único a receber ordens de usar a batina nas férias. Terminou seus estudos em 30 de novembro de 1904.

O Padre Quinderé foi um grande professor. Tomou posse no cargo em dois de junho de 1910, no governo Nogueira Accioly. Em 1912, fundou com os padres Misael Gomes e Climério Chaves o Colégio Cearense.

Em 1915 ocorre o seguinte fato narrado pelo próprio Padre Quinderé: ´Fortaleza está muito diferente, cheia de automóveis que tiram a aliberdade do ir e vir das pessoas nas ruas estreitas da cidade. Certo dia, íamos Monsenhor Tabosa e eu atravessando a rua quando veio um carro em nossa direção. O monsenhor me pegou pelo braço e disse: Cuidado Quinderé, aí vem o progresso nos encaminhando para a morte´.

No ano de 1922 o Ceará já possuía uma população de mais de cem mil habitantes. Presenciou o vôo de Euclides Pinto Martins sobre a cidade de Fortaleza; inaugurou a torre do Cristo Redentor em comemoração ao centenário da independência brasileira; reorganizou-se a Academia Cearense de Letras e Luiz Severiano Ribeiro reabriu seu cinema Polytheama com o filme: O Dever de Todo Filho.

´Em 1924, sem ser político, Dedé foi eleito deputado estadual pelo Partido Conservador, sendo reeleito sob a liderança de José Accioly, em 1928.´ Conta Fernanda Quinderé.

Em 1929, por ocasião de suas Bodas de Prata celebradas a 30 de novembro, Padre Quinderé recebeu o título de Monsenhor concedido pelo Sumo Pontífice Pio XI.

Em 1930 Dedé voltou a dar aulas no Liceu, reassumiu o cargo de secretário geral do Arcebispado, onde permaneceu até 1938, quando se demitiu.

Numa homenagem onde foi saudado pelo doutor Leite Maranhão, o Padre Quinderé ouviu: ´Hoje cego, não vive na escuridão. É o mesmo Quinderé de ontem: esteta, amigo, ridente e feliz para impor felicidade aos outros´. Dedé falava com segurança as palavras da vida eterna e doutrinava com leveza e alegria conquistando a todos. Já doente, tinha conhecimento do limite que a vida lhe reservara e dizia com fervor e consciência.

´A velhice é o calor lento, é o sal da sabedoria que retempera e dá sabor aos atos humanos. É como a bússola, mareia o barco e norteia o nauta´.

Comentando sua personalidade e as anedotas que lhe atribuíam, um amigo disse ao padre:

— Eu não gosto de anedotas, Monsenhor, tenho medo do ridículo.

— E faz muito bem. O ridículo é tão sutil como o mau cheiro. Às vezes quem o conduz é quem menos lhe sente o odor.

Sobre o fato de comentarem suas anedotas, o Padre Quinderé expressou: ´Corre, a meu respeito, uma lenda, a de contador de anedotas e autor de pilhérias e epigramas. Como toda lenda, não é verdade e nem mentira. De fato, meu espírito alegre e comunicativo, dá margem a que se atribua esse título que até certo ponto, em nada me honra e em nada me desmerece. Posso garantir que histórias grosseiras e sem espírito não são de minha autoria. Sinto verdadeira revolta quando me me levam à conta dos muitos pecados. Uma pilhéria sem sal ou um caso sem lógica nem fundamento. Defendo com todas as forças da minha alma e alegria que Deus me deu, não permitindo que ela se misture com coisas torpes ou vulgares. Ela é um dom celeste que não se pode malbaratar. Deus gosta que nós lhe sirvamos com alegria. E minh alegria é tão natural que não sei se a possuo´.

Outra vez lhe indagaram: ´— Padre Quinderé; andam dizendo por aí, que o senhor não é sério. O que é que o senhor me diz?

— Sério eu sou, o que não sou é sisudo.´

Isto se pode comprovar pelas passagens seguintes:

Um dia demorou-se na saída da igreja após rezar uma missa, quando de repente, saiu de dentro da igreja, uma mulher bem vestida que lhe chamou a atenção. Da cabeça aos pés, seu traje era verde e de mangas cavadas. Aproximou-se do padre em reverência pedindo-lhe a benção. Ele, entretanto, saiu-se com essa:

´— Que bela mangueira está a minha frente! Pena que não tenha uma manga!´

De outra feita chegou atrasado para rezar a missa das seis horas na Igreja do Carmo. Uma das beatas que tinham por hábito comungar todos os dias aproximou-se dele na sacristia, enquanto se paramentava.

— Padre Quinderé, eu preciso me confessar.

— Agora eu não posso, estou atrasado. Venha depois da missa.

— Padre Quinderé, eu tenho promessa de comungar todos os dias e hoje tenho que me confessar antes da comunhão.

Reconhecendo a beata perguntou:

— Criatura, você não se confessou ontem? Que pecado tão grave é esse que você cometeu de ontem pra hoje que não pode comungar agora?

— Padre Quinderé, eu só queria saber se é pecado ventar na igreja.

—Contanto que você não apague as velas, pode ventar à vontade.

Fernanda Quinderé conta também que Dom Coutinho do alto dos seus 94 anos relembrou uma passagem entre Dedé e Dom Manuel. Enviado para uma desobriga, foi à serra da Pacatuba. Lá, confessou, batizou, deu a primeira eucaristia para alunos do grupo escolar, realizou casamentos, rezou missa onde pronunciou sermão sobre a fé e a caridade humana. De volta entregou a Dom Manuel a quantia que recebera da paróquia. O arcebispo comentou:

— Padre Quinderé, como é que o senhor vai até lá e só recebe cinco mil réis? O seu sermão não vale mais do que isso?

— Senhor arcebispo, a bem da verdade, meu sermão não valia nem mil réis.

Quando o Padre Quinderé completou 70 anos um amigo sabendo da data festiva foi cumprimentá-lo.

— Padre Quinderé quantos anos o senhor tem?

— Um. — Respondeu com humor.

— Padre Quinderé deixe de graça, quantos anos o senhor tem?

— Um já disse. Mas se você quer saber a minha idade, digo-lhe que tenho 70.

A artista plástica Nice Firmeza recorda um episódio:

´— Padre Quinderé, nós trouxemos aqui a nossa filha para o senhor batiar.

— Já tem nome?

— Já, Padre. O senhor pode batizar com o nome de Urinócola.

— Quando tiverem outra filha, tragam aqui que eu já tenho o nome.

— Qual é padre?

— Vamos batizá-la com o nome de Penícola.

Em volta da casa a meninada da vizinhança brincava de pião, amarelinha, roda, anel, pera-uva-maçã e quando sabiam que o padre estava em casa gritavam da rua:

- Padre Quinderé, ré, ré, ré...

— Sua mãe de quatro pé, pé, pé, pé... — Respondia bem-humorado .

Mas quando não estava disposto e ouvia da rua:

— Padre Quinderé, ré, ré, ré... — respondia imediatamente:

— Puta que pariu, riu, riu, riu.

E numa certa manhã, um vizinho, freqüentador da missa, disse-lhe:

— Padre Quinderé, eu preciso confessar uma história para o senhor.

— Pois vamos para o confessionário.

— Padre, não é pecado não, é outra coisa.

— Pois se não é pecado, conte logo este segredo.

— Padre, também não é segredo não. Toda a vizinhança já sabe. É imundície...

— Que história amaldiçoada é essa que você está querendo me dizer? Conte logo, criatura.

— Toda noite quando o senhor apaga a luz e passa a tranca nas portas, lá pelas 10 horas, um sujeito baixo, entroncado pula pra dentro da sua casa pela janela que dá pra Rua Antonio Pompeu...

Ao cair da tarde desse mesmo dia, Dedé preveniu:

—Marietta, mande armar minha rede lá no quarto ao lado do oitão.

— Que invenção é essa Paderé, quem dorme lá é a Maria para receber o leite de manhãzinha.

—Pois hoje quem vai dormir lá sou eu, a Maria que vá para o quarto dela.

Ao apagar as luzes da casa, dedé enrolou-se na rede, passando as varandas por cima do seu corpo e ficou esperando...

Não deu outra, na hora prevista, o sujeito pulou a janela, e sem perceber a mudança passou a mão por dentro da rede resmungando palavras indecentes. Dedé pulou enfrentando o entroncado e perguntou:

— O que é que o senhor está fazendo dentro da minha casa a uma hora dessas?

— Padre Quinderé, o senhor me desculpe se lhe assustei, mas eu só queria saber que dia é hoje.

— E você está pensando que meu fiofó é calendário?

Não é preciso dizer que Maria não amanheceu em casa.

E assim histórias pitorescas ilustraram a vida do Padre Quinderé e tudo está muito bem contado no livro de sua sobrinha-neta. Os leitores podem saboreá-las na íntegra. O livro se encontra nas melhores livrarias de Fortaleza. Genuinamente cearense, Edições Livro Técnico.

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