A natureza da linguagem escrita - Ler - Diário do Nordeste

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Ensaio

A natureza da linguagem escrita

29.11.2008

A lingüística moderna prega o estudo aprofundado da linguagem oral, como forma de se opor à gramática tradicional, na qual a linguagem literária se baseia. Independentemente do foco de estudo, ambas estão ligadas por serem parcialmente isomórficas, pois recorrem ao mesmo sistema gramatical para expressar as mesmas intenções.

O homem tem uma necessidade individual inerente de se expressar e uma necessidade social de se comunicar. Quando desenhava numa rocha ou em algum objeto, o homem primitivo expressava suas idéias visualmente. Com o passar do tempo essa expressão visual toma duas direções distintas: o desenho como arte e o pictograma como primeiro instrumento de comunicação.

Quando escrevemos, fazemos várias coisas de maneira planejada e coordenada. Enquanto que na linguagem oral (fala) o falante é dependente do contexto. A linguagem escrita é descontextualizada e menos dependente da situação. Permite um planejamento mais cuidadoso, podendo ir de um texto informal (casual) ao mais formal (gramaticalizado). Por ser um registro permanente, a escrita se submete a regras prescritivas podendo ser revisada posteriormente.

Da leitura e da escrita.
Ler e escrever são atividades de comunicação verbal, sujeitos a todos os princípios que regem a comunicação verbal e oral. O objetivo principal do leitor e do redator é fazer com que o texto faça, plenamente, um sentido.

A leitura é bem-sucedida se o leitor compreender o que o redator quer comunicar. A escrita é bem-sucedida se o redator consegue transmitir suas intenções ao leitor sem dificuldade. Em ambas a memória é utilizada para ativar somente os tópicos relativos ao texto em sua construção.

Em sociedades letradas como os Estados Unidos e países da Europa, as pessoas procuram simular a escrita na fala. No nosso contexto, devido à sua extensão geográfica e sua heterogeneidade sócio-econômica, o Brasil é ainda uma nação que privilegia a língua oral, devido a não se deixar controlar por regras prescritivas gramaticais. A oralidade marca a escrita, mesmo nos falantes letrados, ocorrendo por exemplo, quando se busca uma informação oral em lugar de se consultar um guia, manual ou enciclopédia. Gera-se uma dependência da língua oral, mesmo por parte dos que já tem acesso à escrita.

Há necessidade de se preservar a transmissão oral, mas há necessidade também, por parte daquele que já ingressou no mundo dos letrados, de se fazer um uso funcional do código escrito, para que ele tenha acesso independente à informação.

Os estudos sobre compreensão e produção, tanto em linguagem oral, quanto da escrita, são especulativos, devido à natureza não-observável de seus processos. Os métodos são dedutivos, embasados em modelos teóricos abstratos.

Aprendendo a ler e a escrever.
Muitas teses tentaram explicar a aquisição e a aprendizagem da escrita ao longo da história. Para Chomsky, tanto o conhecimento, quanto o comportamento lingüístico seriam geneticamente determinados, por isso chamada sua tese é denominada inatista. O ser humano já viria programado biologicamente para desenvolver determinados tipos de gramática. A tese associacionista aponta para o fato de que a criança monologa na fase inicial de aquisição da linguagem. A criança monologa enquanto está fazendo algo, porque está, desse modo, verbalmente respondendo as suas atividades motoras.

Para Piaget a fala egocêntrica desaparece quando surge o pensamento lógico e a fala socializada. Segundo ele, a fala egocêntrica acompanha a atividade motora e resulta da capacidade lúdica e imaginativa da criança. Na linguagem oral a criança vai da fala egocêntrica para a fala socializada, esta mais elaborada.

Piaget e Vigotsky enfatizam o papel do jogo e do faz-de-conta na aquisição da linguagem. Através das estórias ficcionais, a criança desenvolve a decentração, ou seja, o afastamento do contexto imediato e particular, levando-o ao discurso dissertativo. Bruner, influenciado por Vigotsky, diz que a fala funciona primeiro de modo a enfatizar os significados já estabelecidos em termos de atividade cooperativa. A língua seria uma extensão especializada e convencionalizada da ação cooperativa. Um dos fatores que levam à dificuldade de alfabetização seria a falta de estimulação para os jogos e as brincadeiras, num período anterior à fase da alfabetização. Há variáveis que têm a ver com o aprendiz: antecedentes Sociais - a bagagem cognitiva que a linguagem traz quando entra na escola; antecedentes Dialetais - seu grau de desenvolvimento lingüístico na língua em que vai ser alfabetizada; experiências com linguagens - o fator mais relevante é a consciência da escrita que a criança traz para a escola, derivado do empenho dos pais na introdução da criança no mundo da escrita. Seja pela prática da leitura oral ou de perguntas e respostas sobre escrita. Outras variáveis dizem respeito à natureza do objeto e às experiências da tarefa de ler e escrever em plenitude.

A transição entre gêneros
A dificuldade de mudar o tipo de linguagem, como ler quadrinhos, conversar ao telefone, ler e escrever cartas, vem da visão idealizada que determinadas funções devem pertencer a determinado gênero. Estórias ficcionais pertenceriam à narrativa, informações científicas e políticas à dissertação, ou seja, linguagens que se revelam segmentadas.

O controle das atividades
Devido a ênfase que a escola dá a certas atividades o leitor e o redator em fase de aprendizagem não tem ainda controle pleno desses atos, seja na leitura ou escrita. Ocorre o aparecimento de certas ´dificuldades´ em relação a alguma atividade. Por exemplo quando perguntaram a uma criança se ela achava mais difícil ler ou escrever, esta respondeu: ´ Escrever, porque cansa meus dedos´. Isso prova que a criança está mais consciente de sua dificuldade motora do que de sua dificuldade cognitiva, que era o que mais interessava.

Relativa autonomia do texto
Diferentemente da fala onde ´vale tudo´ para se manter a conversação dentro de um contexto na escrita o escritor precisa se ater aos princípios e prever eventuais dúvidas que venham a surgir na cabeça do leitor, revisando seu texto para responde-las. Ele atua também como leitor confrontando o produto de sua leitura com o que pretende veicular.

Por fim, há variáveis que são da ordem do professor: suas atitudes e concepções determinam o tipo de sua intervenção escolar nesse processo.

Se a concepção do professor for que a linguagem escrita é apenas a transcrição de fala culta, ele tenderá a ignorar a fala do aprendiz que quase nunca atende a sua visão de fala ideal. Por outro lado, se o professor considerar a experiência prévia do aluno com a linguagem, poderá traçar suas metas, objetivamente tendo, a partir disso, uma visão clara do que esperar dele no início do seu aprendizado.Ko

*Do Curso de Letras da Uece
AMANDA ABREU COSTA*/ DANIEL DE SOUSA TAVARES.*
Colaboradores

SAIBA MAIS

KATO, Mary A. No mundo da escrita. São Paulo: Ática, 2000.

KATO, Mary A O aprendizado da leitura. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

KAUFMAN, Ana Maria e RODRIGUEZ, Maria Helena. Escola, leitura e produção de textos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

FRASES

"Roland Barthes afirmou, certa vez, que o verbo escrever podia ter diferentes significados. Quando quem escreve é um escritor, trata-se de um verbo intransitivo: escreve pelo prazer de escrever, e as palavras utilizadas têm mais peso do que a informação contida no texto literário. Quando quem escreve não é um escritor, o verbo passa a ser transitivo, e o que importa são os dados transmitidos, nesse caso, Barthes fala de pessoas que escrevem".

Ana Maria Kaufman
Professora

"Se a criança concebe a escrita como uma representação da fala e a fala da língua em questão é alfabética ou silábica, uma das pré-condições para a criança adquirir essa escrita é a capacidade para a análise segmental da fala a nível silábico ou fonológico, isto é, a capacidade para aprender sons como unidades abstratas".

Mary Kato
Lingüista

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