A história de Feliciana - Ler - Diario do Nordeste

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Ensaio

A história de Feliciana

08.09.2007

Feliciana, filha de um tenente do exército, que se fixou em Caxias na época do cerco ao coronel Fidié, cedo fica órfã de mãe e é criada pela tia, Natalícia, que se torna amásia de seu pai. Ela mantém contato com a prima Maria Luíza, que mora em São Luís, casada com Alexandre Teófilo, o melhor amigo de Antonio. Por meio da correspondência trocada entre os dois amigos, Maria Luíza mantém Feliciana constantemente informada do que se passa na vida do poeta. Somente ela e Natalícia sabem da paixão de Feliciana e de suas silenciosas ilusões. Luíza tenta dissuadir a amiga da ilusão de que o poema ´Olhos Verdes´ foi escrito para ela e a aconselha a casar-se com o professor Adelino, que lhe dedica verdadeira afeição. Feliciana, no entanto, limita-se a acompanhar os passos de Antonio e a esperar a sua volta, ler os seus poemas, escrever cartas confessando o seu amor e rasgá-las em seguida.

A primeira vez que sai de Caxias, Feliciana vai a Fortaleza, junto com Natalícia, sonhando encontrar Antonio. Pelas últimas notícias, ele lá estava com a Comissão Científica. Após uma viagem longa e tumultuada, ela chega à casa do avô e, através de amigos, tem informações desencontradas sobre o destino do amado: ´Em novembro Antonio estivera no Ceará, em dezembro Antonio se achava na Paraíba, diziam uns, outros diziam que estivera no Ceará em março e partira para Manaus, outros que Antonio estava em Recife desde fevereiro, outros ainda que viajava para o Rio de Janeiro em maio, outros que Antonio tinha voltado para o Mearim em dezembro e havia casado com a Ana Amélia, que indigestão!´ (p. 175). Desiludida, Feliciana volta com o pai e a tia para Caxias, já sabendo que ele não se casara.

Da cidade de Fortaleza do século XIX, ela faz as mais belas descrições: ´Uma carroça levou-nos pelas ruas largas, limpas e bem calçadas de Fortaleza, um vento frio açoitava o meu rosto, uivando nos coqueiros, correndo as casas pintadas de variados tons, despenteando os cabelos das moças que vinham à sacada /.../ Uma cidade de calma imperturbável, indiferente às leis do tempo, tangida por um vento noturno suave e cortante. Tinha uma bela fortaleza com seus canhões, mas era pequena, largada,parecia mais uma comarca de interior do que uma capital de província. Sua grande beleza era o mar bravo´ (pp. 172-3). A sua felicidade é saber que Antonio também passou por ali.

Ela volta à sua vida simples de mulher sonhadora e continua a alimentar a ilusão de que o poema foi escrito para seus olhos. Mantém a amizade com o professor Adelino, mas não faz promessa de vir a se casar com ele, como o pai chegou a planejar. Depois da falsa notícia da morte do poeta, ela escreve mais uma carta, confessando seus sentimentos: ´Escrevi a última carta da mesma maneira como escrevera as outras, trancada em meu quarto, com minha mesma letra rabiscada /.../ escrevi minhas palavras tolas e sem poesia mas carregadas de amor, de paixão, porque quando busco dentro de mim é o que encontro..´. (p. 218). Ela revela tudo o que se passou, desde o episódio do poema no papel de embrulho. Escreve, após, uma carta à prima e coloca-a no correio. Angustia-se por não encontrar o rascunho da carta a Antonio e, em visita a Caxias, Maria Luíza diz que no envelope que lhe foi endereçado, estava a carta de amor, que ela tratou de encaminhar ao verdadeiro destinatário. As duas conversam sobre o amor carnal e Feliciana, dias depois, resolve entregar-se ao professor, sem compromisso. Finalmente, quando sabe que Antonio está voltando de Paris, vai esperá-lo no porto de São Luís. Como a espera é inútil, ela decide ir embora. Seu discurso deixa entrever a possibilidade de uma nova vida: ´... decido ir embora, escuto o som do bandolim do professor Adelino, fecho os olhos e escuto, com a sensação de que é apenas o som do vento nos mastros dos barcos, sinto assim como um raio me partir ao meio e então nesse instante meu coração começa a bater de um jeito como nunca batera antes´. Resta a possibilidade de uma história com o professor, iniciada despretensiosamente na noite em que ela desejou conhecer o amor carnal?

Não se sabe, entretanto, sua reação à notícia de que Antonio morrera no naufrágio da barca francesa Ville de Boulogne, na Baixa dos Atins, na costa do estado do Maranhão.

A informação é dada já no ´epílogo´, por um narrador em terceira pessoa, para certificar o leitor de que, antes de morrer, Antonio recebera a carta de Feliciana: ´Restaram no porão do brigue três malas do poeta uma grande e duas pequenas, e uma mala-saco de viagem /.../ assim como dois baú com roupas, cartas, botinas velhas e uma dentadura postiça. Também foi achada uma pequena caixa com charutos, medicamentos, , pequenas peças em ouro, um álbum, um dicionário de língua tupy emendado com letra do poeta, fotografias de escritores, cortesãs, reis, poetas europeus /.../ Recuperou-se a sua tradução dos caracteres góticos do livro ´A Noiva de Messina´, e também cadernos, livros e papéis avulsos. Dentre esses papéis, estava a carta escrita por Feliciana´ Realidade e ficção se entrelaçam, dando ao leitor a ilusão de que Feliciana realmente existiu e viveu esse amor.

Os poemas citados

A paixão de Feliciana começa, como se disse, quando ela vai ao armazém do Sr. Manuel e é atendida por Antonio. Recebe das mãos dele o pacote de feijão verde e, em casa, observa, no papel de embrulho, um poema rascunhado: ´Olhos Verdes´ ´São uns olhos verdes, verdes, / Uns olhos de verde-mar, / Quando o tempo vai bonança; / Uns olhos cor de esperança / Uns olhos por que morri; / Que, ai de mi! / Nem já sei qual fiquei sendo / Depois que os vi! / Como duas esmeraldas, / Iguais na forma e na cor, / Têm luz mais branda e mais forte. / Diz uma - vida, outra - morte; / Uma - loucura, outra - amor. /Nem já sei qual fiquei sendo / Depois que os vi!´

A partir de então, a menina acredita ter inspirado os versos e passa a viver uma paixão silenciosa que a acompanha até a maturidade. No discurso do relato-diário de seu amor, existe referência a trabalhos literários e ao Dicionário de Língua Tupy do poeta; há citação do prólogo dos Primeiros Cantos (´a santa poesia´ p. 49), bem como de trechos de cartas por ele escritas ao amigo Teófilo. ´Olhos Verdes´ e ´Canção do Exílio´, poemas que perpassam toda a história, são seguidos de tantos outros versos diluídos, no romance: ´I-Juca Piarama´; ´Marabá´ (pp. 30-141); ´Leito de Folhas Verdes´ (p. 30); ´Orgulhoso´ (p. 33), ´Como eu te Amo´ (pp. 54 - 80); ´O Soldado Espanhol´ (p. 75); ´Os Timbiras´ (pp. 75-175); ´Saudades´ (p. 97); ´A Leviana´ (p. 127); ´Adeus´ (Aos Meus Amigos do Maranhão) (p. 138); ´O Canto do Guerreiro´; ´O Canto do Piaga´; ´Caxias´; ´O Gigante de Pedra´; ´No Jardim´ (p. 148), ´Adeus´ (p. 163); ´O Mar´

(p. 169); ´A Tarde´ (p. 172); ´Nênia´; ´A Infância´; ´Urge o Tempo´, ´A Mãe D´água´ (p. 179); ´Ainda Uma Vez, Adeus!´ (pp. 196- 234); ´Amor! Delírio -Engano´ (p. 199). Alguns têm apenas o título citado. Os versos ´Numa doce poeira de aljofradas gotas Ou pó sutil de pérolas desfeitas´ (pp. 75-175); ´sobre a veiga formosa, uma menina travessa e ruidosa, a pele coberta de um pó sutil de rubis e de safiras, um humano serafim´ (p. 103) ´Acorda! Acorda ó Vate! Eis que a alegria do profundo cismar´ (p. 119); ´fresca como um pé de alface colhido há três dias, porém há três dias mergulhado n´água´ (p. 138); ´praias desconhecidas os destroços de um mastro embrulhado nas vestes de um navegante´ são alguns dos incorporados à fala da narradora.

Além da minuciosa pesquisa que fez sobre a vida de Gonçalves Dias, suas origens, seus amores e desventuras, suas perdas, os cargos que exerceu e as amizades que fez, Ana Miranda se aprofundou na sua poesia, em grande parte autobiográfica e, na voz de Feliciana, contou a história do poeta também através dos versos escritos por ele. As transcrições em itálico, junto ao discurso da narradora, têm uma costura perfeita e, muitas vezes, traduzem os próprios sentimentos dela. O livro, embora escrito no século XXI, resgata toda a atmosfera romântica e traz aos nossos dias, os Dias & Dias de amor entre uma palmeira e um sabiá (que nunca lá cantou), contrariando os versos emblemáticos da ´Canção do Exílo´. O passado, dessa forma, ganha vida, se atualiza e nos deleita através de uma história bem escrita, um verdadeiro poema em prosa.

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