trajetória

Uma sentença de vida

Após enfrentar um câncer linfático, a médica Niedja Bezerra deu novo sentido à sua trajetória: encabeçou o grupo Panapaná, que hoje auxilia vítimas da doença

00:00 · 02.06.2018 / atualizado às 00:22
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Niedja Bezerra é reumatologista e encabeça o grupo Panapaná ( Foto: Helene Santos )

Feliz, produtiva, ativa. Assim era a fase que a médica Niedja Bezerra, 43, vivia quando recebeu o diagnóstico de câncer linfático. Desacostumada a se enxergar na posição de paciente, a reumatologista deixou de notar diversos sinais e sintomas do problema. "Parece que a gente é treinado pra curar e não pra adoecer", relata Niedja.

Se o caminho havia de ser necessariamente de dor, ela subverteu a regra. Durante todo o processo, desde o momento em que recebeu a dura notícia ao tratamento e conquista da cura, a cearense esteve cercada de bons sentimentos - ou foi "mimada", como gosta de descrever. Apoio, carinho, orações e presentes vinham de todos os lados, de amigos e familiares.

Empatia

De toda essa positividade recebida, surgiu o grupo Panapaná, carinhosamente apelidado de "coletivo de borboletas". "Eu expliquei às pessoas mais próximas e queridas que atravessaria um deserto, mas alcançaria um oásis com arco-íris e borboletas no final. Dali em diante, 50 amigas se uniram em torno de mim para orar, cuidar e mimar", resume a médica.

Em uma lição de empatia, hoje ela repassa todos os "mimos" que recebeu para outros 43 "mimados". Os beneficiados são pessoas de baixa renda do Grupo de Apoio a Pacientes Onco-hematológicos do Estado do Ceará (Gapo), que estão sendo submetidas ao tratamento quimioterápico em busca da cura.

Espalhar bondade não é a única coisa que as "borboletas" já fizeram por esses pacientes. Uma das maiores conquistas do grupo foi a aquisição da sede própria do Gapo, que antes não tinha um lugar definitivo.

Superação

Apesar de doloroso, o câncer marcou um recomeço positivo na vida de Niedja. A médica, por outro lado, reconhece que nem todos têm essa sorte. "Durante minha travessia, encontrei diversas dificuldades, ainda que com todo apoio e conforto financeiro. Se foi complexo pra mim, imagina pra quem tem problemas com o acesso a médicos, alimentação, medicamentos, orientação?", questiona, com uma consciência de quem já esteve naquele lugar, mas reconhece seus privilégios.

Passadas todas as provações, Niedja Bezerra, apesar de melhor, maior, mais forte, continua com a mesma essência. Se antes a alegria e determinação já se faziam presentes, hoje elas permanecem, mas com um importante adicional: o da serenidade. E o ensinamento que ela carrega é basicamente um só: "não precisa ser fácil. Basta ser possível".

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