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Uma flor cearense em Roma

O cinema político italiano foi o contexto em que a atriz Florinda Bolkan se consagrou nas telonas, assumindo papéis de vanguarda que lhe renderam prêmios

00:00 · 29.07.2017

Entre as grandes atrizes brasileiras que conquistaram as plateias internacionais, destaca-se uma cearense muito especial: Florinda Bolkan, nascida Bulcão e Flor para os íntimos, natural da cidade serrana de Uruburetama e hoje detentora de grande prestígio, sobretudo junto ao público europeu. Ela foi honrosamente escolhida para ser membro da Academia Europeia de Cinema e pode orgulhar-se de ser a única estrela do Brasil a ter protagonizado uma produção premiada com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: "Investigações Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita" (1970), de Elio Petri.

Quando muito jovem, Florinda trabalhou como chefe de tripulação na companhia aérea Varig, mas decidiu morar na França em 1967 e depois se mudou para Roma, onde selou em definitivo o brilho de sua apreciável carreira cinematográfica com o apoio de uma grande amiga, a produtora de filmes e condessa Marina Cicogna, que a apresentou a famosos diretores como Luchino Visconti.

A primeira aparição da cearense nas telas foi fazendo uma ponta em "Candy" (1968), filme de elenco estelar que reunia desde Marlon Brando ao "beatle" Ringo Starr. Mas o sucesso internacional só viria por meio de Visconti, na obra-prima "Os Deuses Malditos", uma implacável destruição do mito nazista.

Atriz de vanguarda

O sobrenome Bulcão, difícil de ser pronunciado em outras línguas, teve de ser trocado por Bolkan, por sugestão do cineasta Giuseppe Patroni-Griffi, que incluiria a atriz no elenco de "Numa Noite, Um Jantar", tema de vanguarda para os anos 1960, por afirmar com ênfase a liberdade sexual da mulher, ousadia sempre assumida pela cearense de Uruburetama, que teve na família outra celebridade internacional: a irmã Sônia Bogner, estilista de reconhecido talento, recentemente falecida.

Foi o diretor Elio Petri quem convidou Flor para o filme que talvez seja o mais representativo do intenso cinema político então produzido na Itália: "Investigações Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita", no qual ela contracena com Gian Maria Volontè e que terminou ganhando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A produção lidava com a relação sexo-poder, as rupturas sociais e apresentava, em 1969, um caráter premonitório dos sérios conflitos políticos que eclodiriam posteriormente.

Sucesso de público

Bolkan, hoje com 76 anos, protagonizou grandes sucessos de bilheteria como "O Anônimo Veneziano", de Enrico Maria Salerno; "Momentos Eróticos", de Damiano Damiani, e "Amargo Despertar", penúltimo filme do grande cineasta Vittorio De Sica, por cujo desempenho ela ganhou o prêmio de Melhor Atriz da Associação dos Críticos de Los Angeles. Conquistou três troféus "David de Donatello", considerado o Oscar italiano, além de ser agraciada com a Sereia de Ouro do Grupo Edson Queiroz e receber homenagem de honra na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

No Ceará, Florinda dirigiu, roteirizou e interpretou "Eu Não Conhecia Tururu", apresentando tema inspirado em suas origens interioranas. Com belas e exóticas feições, encimando um corpo belo e longilíneo poeticamente exaltado por Vinicius de Morais, ao estrear no cinema alguém propôs aumentar-lhe o tamanho dos seios. A inoportuna sugestão foi imediatamente refutada pelo cineasta Elio Petri, que observou ser a beleza de Florinda decorrente, sobretudo, da naturalidade e esbeltez das linhas de seu corpo.

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