Ousadia singular

A essência questionadora da estilista britânica Vivienne Westwood está mais viva do que nunca

00:00 · 17.06.2017

Em um cenário onde reinam padrões estéticos, culturais e comportamentais, ser diferente é sinônimo de ousadia e coragem. Essas características são norteadoras da personalidade da estilista Vivienne Westwood, que aos 76 anos continua sendo ícone de autenticidade.

A prova mais atual da singularidade de Vivienne aconteceu no início deste mês, em Berlim. Em evento na loja Bread & Butter, a estilista fez jus à fama de polêmica, aconselhando a audiência a não comprar nada. "Se você quer ser corajoso, tem de fazer uma escolha", disse.

O episódio, talvez estranho à primeira vista, possuiu uma motivação maior. Apesar de ter o nome relacionado à alta-costura, a britânica dispensa sutilezas e faz questão de incentivar um consumo inteligente e sustentável. Ela é adepta da ideia de comprar menos, escolher melhor e fazer as peças durarem.

A preocupação de Vivienne é bastante plausível: de acordo com relatório feito pela Global Fashion Agenda e pelo Boston Consulting Group, o mundo fashion precisa urgentemente discutir a sustentabilidade dentro do mercado, uma vez que o consumo de moda está aumentando enquanto os recursos, diminuindo.

Carreira

A história artística da britânica começou no berço. Filha de mãe tecelã e pai sapateiro, Vivienne teve no núcleo familiar duas referências de profissão que viriam a ser suas grandes paixões. Aos 17 anos, começou a faculdade de Moda, em Londres, mas, sem acreditar que poderia viver de arte, virou professora de inglês. Foi também na capital inglesa que ela se casou e incorporou o sobrenome Westwood.

A chegada dos anos 1960 foi uma espécie de divisor de águas na vida da estilista, que divorciou-se e casou pela segunda vez, agora com o produtor da banda Sex Pistols, Malcolm McLaren. Em 1971, o casal abriu a loja Let It Rock - cujo nome mudou para Sex -, com um estilo "marginal" que rompeu a cena hegemônica da moda da época.

Não demorou para que os holofotes deixassem de lado o estilo "paz e amor", então vigente no cenário fashion, e dessem vez às tendências subversivas representadas nos zíperes em excesso, frases de ordem estampadas em camisetas e peças de couro e látex, que vestiam uma geração ansiosa para ser diferente.

O declínio do movimento punk, mais tarde, não enfraqueceu o nome Vivienne Westwood no cenário artístico; na verdade, despertou uma Vivienne multifacetada, adaptável e cada vez mais criativa.

Vanguardista

Além do ativismo referente a pautas ambientais, sociais e políticas, quando o assunto é ousar e dar o primeiro passo, Vivienne Westwood é referência. Apesar de há muito tempo trilhar outros caminhos no mundo da moda, a essência punk nunca foi desvinculada da imagem dela.

A rebeldia jovem da criadora da Sex deu lugar a criações ainda mais provocadoras e à abordagem de tabus. Não foi à toa que, em 1994, as modelos dela desfilaram com o bumbum de fora. O mesmo vale para a camisa estampada com "não sou terrorista, por favor, não me prenda", usada após as medidas antiterroristas adotadas pelo governo inglês.

Em processo cíclico, Vivienne Westwood se reinventa. Que ela é mutável, já está provado. Falta, agora, que o mundo fashion a acompanhe nesse processo.

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