Casa Cor Ceará

Ofícios compartilhados

Na edição comemorativa da Casa Cor Ceará, pais e filhos que desempenham a mesma profissão colocam, nos projetos, parte do amor envolvido nessa relação

00:00 · 08.09.2018 por Jéssica Colaço - Repórter
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Victor Guimarães, Neuma Figueirêdo, Marcus e Lucas Novais, Racine e Anik Mourão, Inês Porto e Beatriz Câmara ( FOTO: JL ROSA )

Quando a relação entre pais e filhos se estende para o campo profissional e os laços afetivos e de trabalho entram na mesma rede, diversas questões são postas em jogo. A responsabilidade em continuar um legado, a preocupação em deixar que cada um construa a própria identidade profissional e os erros e acertos inerentes ao trabalho em família são alguns dos pontos evidenciados nessa relação. Um aspecto, contudo, não passa despercebido no contexto: o amor pela profissão, espelhado no mesmo sentimento por quem desempenha aquele ofício.

Na Casa Cor Ceará 2018, esse encontro de gerações se faz presente, incorporando, na edição de 20 anos de aniversário da mostra, significados ainda mais especiais. Para o arquiteto Marcus Novais, 52, saber que o filho Lucas Novais, 28, havia decidido seguir a mesma profissão que ele foi "a melhor das surpresas". "Eu não imaginava que o meu filho, através da convivência, tivesse tanto interesse na Arquitetura, tanto que fui surpreendido, me senti superfeliz", diz ele, que acredita compartilhar, com o filho, o mesmo entendimento sobre a Arquitetura como instrumento de transformação da vida das pessoas.

E enquanto Lucas se espelha no pai para entender quais os desejos do cliente dentro de um projeto, Marcus assume ter incorporado, do filho, o senso organizacional. "É nitidamente marcado o momento que ele chega ao escritório, agora temos uma cara nova, passamos por uma renovação", atesta.

Foi também a convivência com o ofício de Arquitetura desde a infância que levou Anik Mourão, 26, a seguir os passos do pai, Racine Mourão, 53, na profissão. "Eu não sei dizer em que momento eu decidi fazer Arquitetura, mas sei que foi algo que vivenciei desde muito nova", diz ela, que trabalha no mesmo espaço do pai, há três anos, mas já trilha a carreira solo - tanto que assina, na Casa Cor, o próprio ambiente.

"Ela é extremamente moderna, tem a cabeça muito na frente. A história da ousadia, do desconstruído, do imperfeito, parte muito dela, e nós trocamos muito nessa convivência", avalia Racine. Já a filha reconhece, entre os atributos profissionais que tomou emprestado do pai, a elegância e atemporalidade do traço. "Isso me inspira nele porque eu gosto de explorar muitos mundos, e tudo o que ele faz, seja mais tradicional ou com pegada jovem, é sempre elegante e equilibrado, até no trato com o cliente", detalha Anik.

Aceitando escolhas

Nem todos os pais, entretanto, celebram a escolha dos filhos em seguirem a mesma profissão. Foi mais ou menos assim com a arquiteta Inês Porto, 60, ao ficar sabendo que a filha, Beatriz Câmara, 32, tinha escolhido cursar Arquitetura. "A princípio eu não aceitava, até o dia em que vi ela indo pra faculdade com os olhinhos brilhando e entendi que era algo que ela realmente queria", recorda a mãe.

Para evitar que a personalidade de uma influenciasse a independência profissional da outra, Inês e Beatriz trabalharam de forma separada durante um bom tempo, até que passaram a ser sócias no mesmo escritório, há cinco anos.

"Me senti amadurecida o suficiente para entrar no escritório de igual para igual, tendo a minha própria identidade. Ela respeitou e isso foi muito positivo", destaca Beatriz, que aponta a entrega da mãe aos projetos de trabalho como a característica em que mais se espelha profissionalmente. Já Inês admira a ousadia da filha. "Ela sempre acha que a gente pode inovar, acrescentar, não pode parar na mesmice, e isso é muito importante na nossa profissão", reconhece.

Diretora da Casa Cor Ceará, Neuma Figueirêdo, 62, passou por um processo parecido quando decidiu integrar o filho, o engenheiro Victor Guimarães, 35, na equipe que dirige o evento. "Em 2010 a minha sócia saiu e, como Victor já tinha essa experiência com construção, trouxe ele pra assumir o operacional, mas antes eu não queria meus filhos trabalhando comigo", conta.

A adaptação foi mais fácil do que ela pensava e, hoje, Neuma diz sentir uma tranquilidade ao saber que compartilha esse projeto com o filho. "Com ele, aprendi muito a ser mais flexível, a ouvir e estar pronta para ajudar os outros", avalia a diretora. Já Victor destaca a praticidade e determinação da mãe como parte do legado profissional. "Mas ainda preciso ficar muito tempo com ela antes de tocar isso aqui sozinho", adianta ele, sob o sorriso e o abraço carinhoso de Neuma.

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