Coluna

Viver melhor: Humildade

00:00 · 22.04.2017

Talvez muitos nem comecem a ler esse artigo por não se interessarem por uma virtude tão tímida e tão aparentemente oposta à imagem poderosa de si que tantos se esforçam em construir. Para que, afinal, desejar a humildade? Para Carl Jung, ela é uma virtude para a segunda metade da vida porque a maioria que está na primeira metade não tem autoestima suficiente para abrir mão das suas metas exteriores nem dos seus desejos de reconhecimento, admiração e valorização. Sua energia é despendida prioritariamente para fortalecer sua imagem e firmar seu papel no mundo, não para vencer o árduo combate com seus próprios conflitos interiores.

Ninguém fica humilde de repente, é preciso lutar. E paradoxalmene, a luta não deve ser para tornar-se humilde mas sim para vencer as próprias falhas. Ao lutar, o homem descobre que seu esforço por si só não é o suficiente para isso e então humildemente rende-se à necessidade de pedir a ajuda de Deus. Portanto, a humildade é alcançada quando compreendemos que nossas lutas pela humildade serão fracassadas se não forem através da graça de Deus. O homem se torna humilde quando ocupa o lugar de homem e deixa que Deus seja Deus, embora Ele não precise da nossa permissão. Recentemente ouvi essa expressão "baixa imunidade espiritual" e é justamente assim que ficamos quando não alimentamos nossa alma de humildade.

Anselm Grün, em seu livro "Humildade e Experiência de Deus", apresenta a humildade como um fruto natural de uma consciência da nossa transitoriedade humana perante a infinitude de Deus e não como uma virtude com a qual podemos "nos enfeitar" por decisão própria. Concordo com sua opinião quando ele afirma que a "experiência com Deus não é uma experiência de elevação às alturas celestiais mas uma experiência de descida à realidade humana atada à terra". Quanto mais nos conhecemos mais encontramos Deus e quanto mais buscamos Deus, mais nos descobrimos. Para alcançar a humildade é preciso muita coragem para vivenciar a humilhante, e ao mesmo tempo surpreendente, experiência do autoconhecimento. É preciso ousadia para descer no profundo do nosso ser, visitar o lado sombrio dos nossos corações e conhecer a raiz dos nossos vícios, impulsos e desordens.

O oposto da humildade é o orgulho. Seguro de si mesmo, o orgulhoso julga-se dono e senhor de tudo. Tem como principal objetivo performar com excelência para assim poder orgulhar-se de si mesmo, podendo essa performance ser até da "santidade". O orgulhoso tende a focar nos defeitos alheios, acredita que a solução dos seus problemas está na mudança do outro e atribue valores extraordinários aos seus próprios desempenhos.

Para Tomás de Aquino, humildade é uma virtude de equilíbrio entre força e fraqueza; grandeza e pequenez, e para Santo Agostinho é a percepção da nossa própria medida. Na Bíblia encontramos esse versículo que diz: "Por isso, pela graça que me foi dada digo a todos vocês: Ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, ao contrário, tenha um conceito equilibrado" (Romanos 12,3).

No meu entendimento, humildade é justamente esse ponto de equilíbrio entre a extremidade esquerda da ausência de autoestima e a extremidade da direita da autoilusão, o que Carl Jung chama de "inflação do ego". Vejo a humildade como a graça do conhecimento da nossa verdade, nem a mais nem a menos do que somos. A humildade nos coloca, assim, no nosso devido lugar e nos aparta de todas as nossas ilusões sobre nós mesmos. Ilusão, por exemplo, de sermos merecedores de graças, ilusão de que Deus precisa nos dá explicações ou satisfações, ilusão de sermos os melhores, ilusão de sermos diferenciados, ilusão de termos uma missão mais especial do que os demais. Tudo ilusão! Somos de fato diferentes e especiais, mas também somos bem comuns e "quase iguais".

"O orgulho do homem o humilha, mas o de espírito humilde obtém honra" (Provérbios 29,23).

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