Coluna

Viver melhor: Carência de coerência

00:00 · 27.05.2017

Quem é você? Em que você acredita? O que você faz? Essas são algumas das perguntas existenciais clássicas que toda pessoa deveria se fazer. Diante do cenário quase inacreditável em que o Brasil se encontra, estamos precisando de pessoas corajosas que comunicam a verdade de quem são, que revelam no que acreditam e fazem o que dizem acreditar. Isso se chama coerência, e é de pessoas coerentes que estamos carentes.

A corrupção parece estar em todo lugar. Para onde olhamos; seja para a mídia, para a política, para o meio público ou empresarial, ou até para os lados, para bem perto de nós, presenciamos comportamentos incoerentes que reforçam a crise; não só financeira, política e econômica, mas a crise existencial do brasileiro.

Muitos estão perdendo a noção do que é certo e errado. As referências do indevido, do injusto e do incorreto estão tão elevadas para todos nós, que comportamentos absurdos parecem ser toleráveis. Por exemplo, dar de presente uma carteira de motorista para alguém que nunca passou em um teste psicotécnico, é uma bobagem para muitos, afinal para quem vive em um cenário de notícias diárias de propinas de milhões, que problema tem dar um "troco" para alguém que facilmente liberaria um documento?

Não é fácil a vida dos que se decidem pela coerência, principalmente no País que vivemos. O caminho do sucesso é mais longo, o esforço é dobrado e os resultados são mais lentos.

O lado bom de tudo isso é o aprendizado de que a esperteza dos homens tem duração limitada. Não há nada de oculto que não venha a ser revelado. Vida coerente não é vida perfeita, nem muito menos vida sem erros, mas uma vida transparente, na qual até os erros e vulnerabilidades são naturalmente assumidos e comunicados.

Não podemos nos perder de nós mesmos. É preciso sermos fortes para sermos coerentes. Fortes para nos posicionarmos com a nossa verdade. Estamos saturados de homens e mulheres "fracas", que dizem sim enquanto deveriam ter dito não. Estamos carentes de pessoas valentes que não lutam com mentira ou violência, mas com verdade e coerência. Pessoas dispostas a perder para não se perder. Decididas a fazer o certo, custe o que custar, doa o que doer.

Há esperança porque que ainda existe muita gente coerente nesse nosso Brasil. Muitas pessoas que têm clareza de identidade, que não atropelam outros para vencer e que não se cor-rompem com o poder nem com o ter. Pessoas inteligentes que não se deslumbram com as seduções deste mundo, nem se encantam com ilusões de quem pensam ser. É sobre essa força de identidade que precisamos refletir. Força que nos mantém firmes no caminho certo a seguir e que nos ajudam a evitar os atalhos, alternativas preferidas dos mais fracos.

Acredito que todos nós temos comportamentos incoerentes em alguma situação ou em algum determinado momento. Meu convite a você é refletir comigo: em que estamos sendo incoerentes? Onde estão os desalinhamentos do meu discurso com minha prática? O que tenho falado e não tenho feito? O que prego e não acredito? O que digo de mim que não é de fato quem sou? E afinal, quem é você? No que você acredita? E o que você faz para revelar em que você acredita?

A nova identidade do Brasil se fará a partir de você, de mim e de todos os corajosos dispostos a rever o quão coerentes estamos sendo na nossa forma de ser e viver.

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