Estrelas Esquecidas

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 17.11.2013

No meio da noite
Tenho o sono leve, acordo com qualquer ruído que fuja aos sons costumeiros dentro de casa. Não me assusto com nada, mas diante de uma surpresa qualquer, o corpo fica firme, sem se abalar, mas a adrenalina faz o seu serviço, cumpre o seu papel, mexe com as moléculas e cada átomo da geografia. Mas existe uma coisa que ainda não consegui dominar: as emoções! Tenho conhecidos de aparente sangue frio, que demonstram indiferença quando confrontados com situações que para qualquer dos mortais mexeria com a sua estrutura e ficariam expostos pela mudança de comportamento, de olhar, dos vincos na testa e pela reações impensadas ou atabalhoadas. Prefiro reagir, ter e demonstrar emoções, sejam elas quais forem. Muitos são assim, que nem eu e eu não sou muito diferente da maioria. Aprendi, ao longo da vida, principalmente com os erros a tentar não repetí-los ou, no mínimo, evitar seguir pelo mesmo caminho onde as armadilhas o dia a dia possam levar aos mesmos resultados. A vida é assim mesmo, cheia de acertos e erros. Mas existe uma coisa que nunca consegui assimilar, entender, perdoar: a ingratidão! O mesmo conhecido que consegue ficar impávido diante de reveses ou situações que alarmariam o mais comum dos mortais me ensinou uma lição: quando você fizer alguma coisa por alguém, lembre-se de que já fez e nunca espere pelo reconhecimento... E fui mais adiante no aprendizado: nunca esperei nem mesmo por um agradecimentos. Se fiz, está feito, fiz porque quis e acabou a história. Mesmo que não seja comigo, que eu não tenha nada a ver com o fato, certas atitudes me causam revolta e asco por constatar que existem criaturas nesse mundo que são capazes de retribuir um bem que se lhes faça com atitudes mesquinhas que repugnam. Pois bem, no meio da noite de um desses dias, fui surpreendido, com o som no meu iPad que indicava a chegada de uma mensagem. Nunca deixo equipamentos eletrônicos ligados, mas nessa noite adormeci e esqueci de desligar. Vinda não sei de onde, uma mensagem: "eres mui lindo. Me abraça..." Pensando tratar-se de uma brincadeira sem malícia, respondi com uma pergunta "tem certeza de que mandou a mensagem para a pessoa certa?" E a mensagem seguinte dizia: não importa. Antes de dizer meu nome, argumentei que aquela abordagem talvez fosse em consequência de uma insônia passageira no meio da madrugada e em busca de uma companhia que pudesse trazer o sono de volta. Na internet tudo é rastreável e no dia seguinte, depois de dois cliques sobre a minúscula imagem da pessoa que me abordou, descobri tratar-se de uma pessoa que eu conhecia, esposa de um conhecido, mãe de uma moça muito bonita e avó de uma criança adorável. Na parte das dezenas de "fotos de fulana"no Facebook, lá estava ela, abraçada ao marido, aos filhos, aos netos, enfim, aos familiares. Apaguei as mensagens, coloquei a remetente em uma situação que não poderia mais me abordar e refleti com os meus botões: "o que leva uma mulher tão bonita, tão elegante, com uma família tão feliz, fazer abordagens assim, no meio da madrugada, enquanto o marido talvez estivesse bem ali, ao seu lado? Abordar um estranho, se expondo como se expôs, pedindo um abraço eletrônico que, a bem da verdade, não lhe serviria de absolutamente nada, a não ser uma troca de textos picantes para alimentar uma vida desgastada ou os perigos de uma relação virtual que bem poderia colocar em risco todas aquelas imagens. Não sou santo, não sou preconceituoso, estou mais para demônio que para homem santo, mas certas coisas, mesmo para uma pessoa como eu, um homem do mundo, ainda causa um certo espanto quando vejo tanta ingratidão em troca de tanta felicidade explícita nos rostos inocentes de tantas fotografias...

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