Coluna

Estrelas esquecidas: Viagem fantástica

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 01.07.2017

Há cinco anos, em uma das primeiras viagens que fiz para encontrar Maria, fazia uma belíssima noite de lua cheia. Abracei-a enquanto olhávamos para o imenso globo prateado que ela pouco entendia e disse: "ainda vamos nos ver muitas vezes, mas se um dia eu partir para nunca mais voltar, lembre-se de mim, pelo menos nas noites de lua cheia e tente escutar a minha voz, entre as estrelas que sempre ficam mais acanhadas nessas dias a dizer que amo muito você".

Pois bem, Maria cresceu, não carece mais de carregá-la no colo. Dia desses, no advento de seus sete anos, entre menina travessa e irrequieta, cantando "Despacito" diante da TV, ela foi passear comigo de mãos dadas pelas calçadas de um shopping. Mas não era tempo de lua grande para lembrarmos da nossa primeira caminhada debaixo das mágicas luzes do luar pleno. Maria voltou para a cidade distante onde mora e para seus primeiros estudos de menina aplicada que é e deixou-me aqui, mais uma vez, no meio dos preparativos para ganhar o mundo em busca de melhores soluções para os problemas que o tempo de muito tempo já vivido nos impõe.

Foi em consequência do bulício de vários dias seguidos para deixar gavetas de muitas histórias no lugar que me deitei relendo meu livro de bolso comprado há mais de quarenta anos, "Les Rois des Etòiles", Os Reis das Estrelas. E viajei no tempo em uma nave hiperveloz pelo universo, passando por entre estrelas e negaceando mundos muito além da imaginação.

De repente, Maria me perguntou: "Vamos até onde, papai?". "Pare aqui", respondi, enquanto volta-me para ela, vestida de astronauta e bem sentada diante dos controles da nave fantástica. Através de uma das janelas, eu podia ver milhões de estrelas que recortavam a silhueta da menina transformada em mulher feita, de gestos delicados, rosto definido com expressões de caráter forte e segura de seu destino.

Disse-lhe, com voz pausada, para não ser traído pela emoção do momento: "Minha filha, trouxe você nessa viagem através desse tempo no futuro para fugir da realidade do seu presente e vê-la no seu momento distante, quando não estarei mais aqui". "Eu sei, papai! Eu sei...". E me abraçou. Baixei a viseira do capacete para ela não me ver chorar. Só em viagens assim, pai e filha podem se encontrar no futuro para imaginar como seriam se pudessem ser eternos ou sonhar com as melhores fantasias e desejá-las reais, eternas, como desejam os pais fora de tempo.

Disse-lhe que naquele momento era chegada a hora de deixá-la manobrar a nave e fazer o caminho de volta para casa. Quando me viu iniciar o procedimento para entrar no módulo para sair da nave principal, Maria me perguntou: "Pai, você não volta comigo?". "Não, minha filha, meu lugar é aqui, entre as estrelas de que tanto cuidei e daqui posso cuidar de você no seu mundo que está apenas se formando".

Pai e filha se despediram nos confins do espaço, cada um seguindo direções opostas. Ela, voltando para onde está o seu presente, a poucos anos de sua pré-adolescência e eu, conformado com a proximidade do derradeiro porto onde a eternidade espera pelas melhores lembranças e as mais sagradas saudades...

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