Coluna

Estrelas Esquecidas: Verdades sobre o primeiro amor

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 10.03.2018

Saudosistas ainda dizem que o primeiro amor é único, mas são seus filhos que mostram o contrário, basta ver a facilidade com que trocam de nomes nos dias atuais. Mas quem, mesmo esses saudosistas, lembram-se do nome ou do rosto da primeira namorada?

É mais fácil uma mulher, com mais tempo colecionado no corpo e na alma, lembrar-se do primeiro amor porque nos seus respectivos tempos de outrora escrevia diários. Alguns tinham até cadeado, eram atualizados com a porta do quarto fechada e muito bem escondidos, cheios de códigos. Ai da mãe que se atravesse ao menos tocar neles. Eram invioláveis, indivisíveis.

Homens não escreviam diário. No máximo, faziam anotações de encontros ou safadezas em código para lembrar-se das vantagens que tiravam. As mulheres sofriam nas confissões que faziam: "Será que ainda gosto dele?", "Hoje, conheci um menino novato na escola. Meu Deus, ele é lindo! Se o Francisco ao menos desconfiasse...!".

Se o primeiro amor vingava e era promovido com direito a aliança de pérola, símbolo de "compromisso", podia ascender à condição de merecer uma aliança de brilhante e o passo seguinte era uma aliança de ouro. O rompimento de um compromisso desses, a partir do estágio da aliança de brilhantes, tinha como consequência uma série de perguntas e era cercado de curiosidades que nunca chegam ao fim. Acabar um noivado com aliança de ouro sendo retirada do dedo era o fim da picada, mas acontecia. Ficava difícil seguir o arrependimento e ir catar onde caiu.

Muitas mães, naqueles tempos mais simples, quando as mãos do rapaz não se ocupavam com smartphones, preocupadas com repentinos silêncios na sala, pigarreavam ou faziam qualquer ruído para dizer que estavam atentas, vigilantes. Pérola, brilhante ou até mesmo o ouro das alianças não eram salvo conduto para certas intimidades. O primeiro amor era o mais vigiado. Era preciso ter cuidado. Não facilitar e evitar a descoberta de que a Marcinha precisava casar. Tinha o lance de fugir com a moça. Fugiu, casou. E rápido!

Naquele tempo, sofria-se por qualquer distância que separasse o casal. Era um drama. Tinha chororô, promessas de fidelidade até às próximas férias, quando ele ou ela voltassem a se encontrar. Nesses casos, era mais difícil o primeiro amor criar raízes porque não tinha chamada de vídeo. Ah, o primeiro amor...! Guardava-se até o papel da embalagem do primeiro Pipper que chuparam juntos. Sim, havia os avanços refrescantes de trocar a bala com sabor de menta. Ah, o primeiro amor...! O primeiro amor deixou saudades, mas infelizmente, a maioria daqueles que viveram nos tempos do primeiro amor já foi conhecer o que existe no insondável universo da eternidade ou estão perto.

Diários foram relegados ao fundo do baú ou jogados no lixo por conta de ciúmes tardios. O primeiro amor, a bem da pura verdade, a gente nem lembra mais. Já passou tanto tempo!

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