Coluna

Estrelas esquecidas: Verdades simples são complicadas

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 10.06.2017

Existe uma tendência normal de complicar o que é simples na maioria dos comportamentos do homem. Essa é a práxis, palavra com origem no termo em grego e que significa conduta ou ação. Corresponde a uma atividade prática em oposição à teoria. O termo é abordado por vários campos de conhecimento, que classificam práxis como uma atividade voluntária orientada para determinado fim ou resultado.

Até parece que as coisas simples não têm valor ou só passam a ter depois que se mostram mais difíceis, como se houvesse uma necessidade escondida de não aceitá-las para valorizar suas conquistas ou aparências. Essa é a práxis. Infelizmente! Acontece quando uma resposta ao que quer que seja ou uma explicação se apresenta simples e começa com "veja bem" ou máscara uma desculpa sem consistência, ou uma pausa oportuna para que se busque uma alternativa que permita dar maior valor à pergunta simples, ou engordar a resposta travestida de palavras fantasiadas de aparente profundidade.

Muito bem, vamos pensar nas consequências iniciais de uma pendenga boca entre pessoas que se gostam, que se amam ou que convivem dentro de uma relação estável, aquele namoro que ficou comprido demais e as leis contemplaram com direitos porque o capital tempo de um dos dois passou a cobrar juros e correção. Ora, no momento em que o clima pesa, por exemplo, por conta de uma marca de batom na camisa ou na mesma camisa a presença vaporosa de um perfume alienígena, depois de um "o que é isso?", com um dedo em riste apontado feito flecha ou espada afiada para a mancha delatora no colarinho ou gola dessa camisa, apenas chegada em casa pouquinha coisa fora do habitual, ao invés de um simples "batom!", bem assim, direto, objetivo, puro e sincero e verdadeiro, envereda-se para o desnecessário espanto acrescido de "onde?", "como" ou "não sei".

Os cumprimentos modernos permitem que uma mulher abrace um amigo, namorado de alguém, noivo ou, pior, casado, com extremo fervor, entusiasmo ou calor e nesse contexto possibilite um carimbo bem vermelho, borrado ou bem explícito da boca afoita e desinibida. Dar uma resposta simples e sincera não encontra respaldo dentro das reservas de desconfiança de toda mulher (sem machismo, por favor!). Até parece que toda mulher já nasceu desconfiada e todo homem traz, em seu DNA, células universais de canalhice.

Não é justo. Todos nós, homens, criados à imagem e semelhança do Criador, somos inocentes e puros, até que se prove o contrário e uma mancha de batom na camisa não serve como prova irrefutável, diante das leis universais em vigor. Não havendo flagrante, existe a dúvida em caso de dúvida, é como preconiza a máxima jurídica: In dubio pro reo, que é uma expressão latina que significa literalmente "na dúvida, a favor do réu". Ela expressa o princípio jurídico da presunção da inocência, que diz que em casos de dúvidas se favorecerá o réu.

Bem isso, bem assim, mas não vale na visão de uma mulher pressupostamente traída. Nesse caso, a práxis é assumir que inevitavelmente uma verdade simples é sempre muito complicada.

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