Coluna

Estrelas Esquecidas: verdades estranhas demais

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 13.01.2018

Existem momentos na vida, principalmente para aqueles que já viveram acima da conta, em que se torna questão de sobreviver o resto desse bônus com dignidade e consciência em paz marcar um encontro consigo mesmo. Nesses encontros, a sinceridade do propósito não pode permitir atenuantes, desculpas esfarrapadas ou compaixão por si mesmo. É o único momento em que a dura "Lex sed Lex" é pra valer e as firulas ficam compulsoriamente de fora porque o acusador é o próprio defensor, seu juiz e a sua consciência não questiona o veredicto.

São em momentos assim que, diante do espelho, completamente nu de suas vaidades, ele se olha e assume cada um dos atos e consequências, sem direito a réplicas, tréplicas ou oportunos embargos infringentes. No máximo, se lhe permite uma pergunta silenciosa e uma resposta firme, dura: "Fui mesmo capaz?". Foi! Limpo e seco. Não tivesse sido, não estaria ali.

Certas verdades são estranhas demais, mas são verdades inquestionáveis picando forte e com insistência dentro da consciência e comprometendo a paz do sono. Bem assim. Ter vivido muito não dá o direito de ter errado muito. A vida não é benevolente com quem erra muito e, pior, com quem insiste no mesmo erro e acha que, pedindo oportuno perdão ao deus da sua preferência, estará livre do fogo de todos os infernos.

Ser bom não é uma obrigação, mas ser deliberadamente mau não cabe nesse livre arbítrio. Ser bom é a medida mais justa que fundamenta o único e verdadeiro mandamento da lei que rege todas as leis: "não faz a outrem o que não gostaria que te façam". Simples, claro, fácil de seguir. Em momentos assim, pode-se até questionar sobre as vantagens de já ter vivido tanto e a melhor resposta está na certeza de que, por algum motivo, fomos eleitos para viver todo esse tanto tempo.

Em momentos assim, nesses encontros que marcamos conosco para escutar as nossas próprias acusações e aceitar os castigos merecidos, impostos pela consciência que nos incomodou ao longo da vida, essa é a melhor saída, não para pretender o perdão universal, mas para aliviar o peso que viemos carregando nas malas cheias dessas verdades, as mais estranhas, mais absurdas, aquelas que por muito tempo teimamos misturar com as pedras das desculpas ridículas que nos demos. Em momentos assim, devemos encarar essas verdades e esperar pelo benefício de um retalho de paz para adormecer...

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