coluna

Estrelas Esquecidas: Uma estrada para esquecer

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 07.10.2017

Quando me perguntavam, aqui e ali, a razão das escolhas - digamos esdrúxulas -, dos lugares distantes para onde carrego minhas lentes, por conta de viajar sozinho e sem ligar para os perigos dessa vida, costumava responder: "perigo maior é assumir os medos de envelhecer vendo o tempo passar ou ser atropelado por um fusca na Barra do Ceará". O tempo está ali, olhando para mim cheio de curiosidade e talvez espanto pelas aventuras ousadas.

Nem ligo, mas ainda não foi dessa vez, depois de Mandalay, no Miyanmar, em uma estrada esburacada aqui, em Hoà Lu, Trung Yên, nos confins do Vietnam. Dizem à boca farta, mas nem tão sábia assim, que uma vez aprendido a andar de bicicleta, não se esquece mais. O lugar aonde eu queria chegar ficava bem depois da parada do ônibus. Eram duas as alternativas: caminhar debaixo de sol abrasador e um calor miserável, tipo sauna bem quente ou...

Pois bem, acreditei na história do aprendizado de andar de bicicleta. Um dólar por um dia de aluguel do veículo nem tão surrado assim me pareceu tentador. E lá fui eu, ensaiando as primeiras pedaladas depois de mais de cinquenta anos. Não venci 500 metros, quando o som de um carro na mesma estrada se aproximou, muito sem jeito puxei o guidão para a direita quando a mocinha local me atingiu por trás. Ainda bem que tantos anos já vividos não me tiraram (ainda) os reflexos. Ainda no ar, protegi a câmera com o corpo e a cabeça com uma das mãos. Depois, foi quase comer poeira e aceitar a dor do baque sobre um dos joelhos.

Não seria o caso de correr perigo de morrer por acidente tão pequeno, mas convenhamos: ser atropelado por outra bicicleta numa estrada de piçarra, em um lugar de nome estranho, logo no Vietnam, era um castigo dos infernos. O "tentador" para optar pela bicicleta logo se transformou em tanta dor. A mocinha desdobrou-se em pedir desculpas ou estava me culpando pela manobra brusca para a direita. Ninguém faz ultrapassagem pela direita, mesmo no Vietnam, onde o trânsito caótico é atração turística.

Não deixei que ela me tocasse ou um passante me ajudasse a levantar. Primeiro, precisava me certificar que os ossos estavam no lugar, depois, que a câmera estava bem. Quando me sentei, um plantador de arroz da região, fazendo uso de uma autoridade à qual aquiesci sem reclamos ou resto de orgulho, examinou através do buraco aberto na calça se havia uma fratura tipo exposta. Nada! Foi uma besteirinha de nada, a bem da verdade, mas que doía e ardia, não havia como esconder.

A mocinha foi embora e só quando estava perto de outra curva lançou um olhar para trás. Acenei ensaiando que estava tudo bem e ela sumiu na paisagem belíssima do lugar. O machucado ainda quente me permitiu a irresponsabilidade de caminhar até meu destino. Eu tinha uma história para contar. Podia inventar que foi um cara de Ferrari que me jogou para fora da estrada, mas ficou mais romântico ser atropelado por uma mocinha vietnamita de rosto bonito, mesmo assustado ao me ver coberto de poeira, calça rasgada na altura do joelho com sangramento sem alarde a dar o toque final.

A cobrança da inconsequência por forçar a barra mesmo machucado chegou já com o recibo pronto quando, no meio da madrugada, fui levantar para beber água, digamos assim, e fui surpreendido com o meu próprio grito e depois apavorado com o tamanho do inchaço. Dali a cinco dias, eu precisava estar em Luang Prabang e eu chegaria lá nem que fosse me arrastando. E a estrada eu já teria esquecido. Ou não. Essa história continua. Trung Yên, Vietnam, Setembro de 2017.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.