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Estrelas Esquecidas: Uma coleção de momentos

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 23.12.2017

A vida, agitada ou mansa, é uma coleção de momentos, muitos dos quais são escolhas nossas. Outros, nos são impostos e não há como recusá-los. De uma forma ou de outra, bons ou ruins, não são de graça. Alguns custam pouco e nem cuidamos de ver a etiqueta. Outros, no entanto, deixamos de ver quanto custam. No processo escada abaixo da vida, já nas remarcações para zerar o estoque dos dias, a conta nos é posta ao final do balanço.

Como escreveu o poeta, há muito ido, a vida, agitada ou mansa, repousa nessa verdade: nos moços, quanta esperança, nos velhos quanta saudade! "Quantos Natais festejarei?". "Ah, que lembranças daqueles Natais que vivi...!". Cada qual no seu quintal, no seu tempo; tem que um dia custou tanto a passar e ali, no outro extremo desse quintal do mesmo dono, passando depressa, sem razão, sem aparente necessidade e impossível de fazê-lo parar.

A vida é uma coleção de momentos, como todos aqueles quando escutamos as promessas de para sempre, com vozes diferentes, nomes diferentes, momentos diferentes. Pura redundância, pois a esperança que nem sabíamos ter de reserva deu-nos outro e mais outro "para sempre" novo, e voltamos a acreditar na fantasia, no sonho dessa infinitude. O início de cada uma dessas promessas, pela magia que envolve, nos alheia do tempo e no tempo, assim como as emoções dos grandes amores.

A gente dificilmente lembra como e quando eles começaram, mas seguramente nunca esquecemos quando chegaram ao fim. O pior são os destroços, os pedaços de arrependimentos impossível de juntá-los e fazê-los valer, serem aceitos como crédito para um recomeço, uma nova chance sempre capenga, cheia de mágoas jogadas na cara, sem dó, sem piedade, feito uma vingança a prestação. Na verdade, não existe muito no que se apegar nesse retorno porque em cada lugar existe uma cicatriz ainda verde de um golpe fácil de voltar a sangrar, onde as lembranças ruins acordam fácil e as dores incomodam como no primeiro dia.

O futuro é uma ilusão incrustada em um tempo que ainda não chegou... O futuro sempre chega; quer estejamos palidamente presentes ou mesmo que já nos tenhamos feito ausentes e sejamos um mero passado descolorido. Dezembro já agoniza ou se espreguiça de cansaço pelo ano que passou depressa demais. Quase tudo lembrando repetição.

Que nada! Foi tudo diferente dentro da mesmice do contexto do qual fazemos parte. Para uns, nesse dezembro de luzes se acendendo nervosas - para depois se apagar de vez quando o ano que vai debutar explodir na confusão dos gritos e fogos alvoroçados -, agarrar-se aos cremes caros que passa sobre o rosto de barba branca com uma âncora para fazer parar o tempo é uma doce e sempre bem vinda ilusão.

Enquanto girava pelo mundo até pouco tempo atrás, tive tempo de reparar na minha coleção. Coloquei etiquetas mentais em cada uma delas. De longe, lá longe das origens de cada uma delas, todas pareceram iguais. Contou pouco o desfecho de cada um desses momentos da coleção, mas foi importante a sensação da certeza de ter vivido cada um. Cada "para sempre", apesar de ter acabado no seu devido tempo, proporcionou a leveza de ter vivido todos eles com maior ou menor intensidade. Não existe promessa melhor que essa, sugerindo eternidade de um sentimento posto em chama que se acaba. A vida é, sim, uma coleção de momentos onde alguns merecem ser relembrados nesse Natal pelo simples fato de tê-los vivido com a sagrada certeza de tantos dezembros que vimos passar...

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