Coluna

Estrelas Esquecidas: Um sonho muito ruim

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 15.09.2018

As mesmas mocinhas e rapazes que se alvoroçam nos finais de semana - compreenda-se aí a partir de sexta para sábado e sábado para domingo -, no sentido de perturbar com as mesmas agitações destemperadas, já os conheço pelas vozes. Os rostos transformados pelo consumo excessivo de muita bebida dentro do orçamento, já identifiquei dentro das lentes do binóculo. Sempre é a mesma coisa: lindas ao chegar, bem vestidas, perfumadas (óbvia dedução), comecinho do dia já raiando, parecem desfiguradas pelo som alto dentro do "saloon" da moda.

Silenciosas, comedidas ao chegar, agora, dizem coisas desconexas, gritam como se tivessem ficado surdas com o barulho das caixas de som potentes e, aparentemente, devem ter deixado a boa educação, boas maneiras e o comedimento no palavrório que não está nem aí. Algumas, descalças - sim, porque o equilíbrio da elegância à chegada, desvaneceu por conta das doses extras.

Pois bem, deixei de me incomodar e aí o relógio biológico foi mudado naturalmente e, consequentemente, sou compelido a acordar e ficar curtindo o "corujão" repetido nesses dias. Aqui e ali, um trailer diferente: ensaio de briga, cenas de ciúmes, ameaças e de "sair na mão", quando os ânimos dos saradões investem em provocações contra a moral e integridade física dos exaltados e remete ao enredo de filmes de violência. É quando os vizinhos do condomínio do outro lado da calçada do "pub", perdem a paciência e chamam a polícia.

Vai que um maluco resolve apelar para um bang-bang! Ninguém gosta de encontrar uma dessas balas perdidas, principalmente se arriscar e ir à janela para ver o que está acontecendo. Dez minutos depois, a viatura chega com as strobo lights - que o vulgo chama de giroflex erroneamente - e com algumas pitadas de sirene, só para avisar, os ânimos se acalmam e todo mundo faz aquela cara de "não foi nada demais", mas aí o sono já ficou comprometido e o manobrista vai lá, pega o carro da moçada e os afoitos vão embora cantando pneu. Ninguém é de ferro para ficar, de madrugada, fazendo teste de bafômetro, apreendendo documento e veículo e rebocando o mesmo, só para mexer na casa dos marimbondos sarados, cheios de "sabe-com-quem-está-falando?". Melhor deixar pra lá. Dessa vez não foi esse contexto.

Era madrugada de segunda para terça. Fui dormir cedo e tive sonhos muito vívidos, extremamente explícitos. Conversávamos sobre coisas do tipo onde moram as emoções. No passado, disse um, estão as certezas e os arrependimentos. Concordei de pronto e acrescentei: infelizmente, os sonhos e as esperanças moram no futuro e argumentei que aqueles que já sacaram muitos anos da conta corrente de suas vidas nem podem sonhar muito para frente e as esperanças são poucas. Aí, entraram os arrependimentos dos malfeitos, as investidas erradas, a vaidade que já andou de mãos dadas com a idiotice do exibicionismo que deu um prejuízo danado e consequências bem ruins. "Quem mandou ser bobo?". Lembro que em algum momento desse sonho eu praguejava, era desrespeitoso com o desconhecido e afrontava as crenças por conta das mensagens que enchem a paciência sobre "hoje um milagre vai acontecer na sua vida", coisas do tipo.

Foi quando perdi a paciência e imitei os rapazinhos que se acham super-homem e desafiei o arquiteto maior. Num piscar de olhos, lá estava o super-herói, cabisbaixo, diante de um tribunal incrível. Foram de pouca valia os argumentos para embasar atenuantes. Fazer o bem e respeitar o próximo era default. Não contava. A vida inteira passou num Power Point celestial. O veredito foi cruel. Condenado, fui arrastando as correntes por um corredor cada vez mais quente e sem poder olhar para trás. Aquela história de luz branca no fim de um túnel é para os ímpios. Definitivamente eu não era um deles.

O pior é que tudo era muito nítido. Aquilo não era um sonho. Era real. O Power Point mostrava detalhes, cartas de amor falsas, promessas nunca cumpridas, beijos sem o menor gosto, lençóis os mais variados, deboche, lágrimas que fiz correr em rostos que diziam me amar e eu respondia "eu também" com a maior cara de pau. De valia nenhuma foi dizer que também chorei, que roí a corda, que também sofri. Ponto final. A decisão do Homem não permitia recursos, embargos, interferência da ONU. Meus direitos, coisa nenhuma. O inferno, além de quente, cheira ruim. E isso foi o que mais me chamou a atenção.

O cheiro era tão real que mesmo abrindo os olhos não enxergava nada. O enxofre impregnava meu quarto. Num gesto de desespero por não ter nem ao menos me despedido dos entes queridos, bebido uma derradeira taça de vinho com os amigos mais caros, nada. Tateei até a janela e senti que o cheiro tomava conta do mundo.

Foi quando se fez a luz! A verdade é que estavam asfaltando a Senador Virgílio Távora nesses dias de pré-eleições e aquelas máquinas estavam passando bem diante do inferno onde os diabinhos sarados apareceriam na quinta, sexta e sábado. Por via das dúvidas, tomei um copo de leite...

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