Coluna

Estrelas Esquecidas: Um beco sem saída

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 16.12.2017

Em cima da cama, à beira do sono, insone, inconsciente se consome. Falta paciência, tem ciência da leve demência pela carência aguda que se instalou na falta que lhe faz o que perdeu, bobamente, tolamente. Bem, agora é tarde, e disso sabe. A lembrança dela arde e incomoda tarde da noite ou já quase cedo da madrugada. Tudo podia ser diferente, mas não foi.

Não é mais nem nunca será. Nesse "nunca" acredita porque foi forte, definitivo. Ficou sem jeito e o pior é que tinha jeito, nem que fosse um remendo. Ficou um corte, um buraco, escuro e vazio, cheio de sons a se confundir com os ecos das mesma lamentações, sofrências, cobranças sem ter com o que pagar. O corte afiado foi largo, profundo e foi doendo numa crescente até não poder conter o grito da rendição, mas sem pedir perdão. Só um grito que se transformou num gemido até cansar.

À beira do sono, querendo dormir, apagar, desmaiar talvez, ou aceitar um pesadelo ou sonho, mesmo ruim, para se esconder. Se alvoroça, se coça, se cata, se busca, se procura e não se acha em nenhum lugar; nem no teto, nem no chão. Acende a luz, apaga a luz e se abraça no escuro como se pudesse proteger ou abrigar a si mesmo dentro da mesma agonia de sempre, e aí se abraça ao travesseiro e quase se sufoca.

Depois, cala de repente, silencia. Cruza as mãos, estala os dedos contando os medos, na maior lonjura de onde é difícil de voltar correndo. Inventa coragem e força esperando que amanheça. Parece que não vai amanhecer nunca ou o entardecer será comprido demais, e vê miragens, visões de rostos confusos, sons de vozes conhecidas, aborrecidas, zangadas.

Sente cheiros que começaram a sumir já faz tempo, mas não vão embora de vez: J'adore, Trussardi, L'insolente, aspergidos sobre a pele nua, no rosto, no colo, na nuca, no ventre, só para inebriar, enfeitiçar fazer se perder sem pressa de se achar. E os sons... Ah, os sons repetindo "sou tua..." à luz da lua, nas dunas, na praia, na loucura sobre os lençóis, sem eles, largados, testemunhas perfumadas cheios de cumplicidade.

"Sou tua... Para sempre!" - era bom acreditar. São mentiras assim que fazem parecer que existe eternidade. -Verdade que é minha mesmo? "Sim, acredite, eu juro! Mas se não quer acreditar, pelo menos carpe diem todo dia, um depois do outro...". E ria, e debochava, e virava de costas e me ofertava a nuca e me fazia ler e repetir para não esquecer de curtir o dia, todo dia, enquanto durasse a ilusão de para sempre.

Melhor que nada ou se afogar nas dúvidas sem vida do dia seguinte que ainda não aconteceu. "Se amanhã eu não for mais tua, olha pra trás, pensa nesse agora, nesse momento em que estou sendo tua nada vai mudar porque o que está acontecendo é um passado sendo vivido a cada segundo da volta inteira do ponteiro...". - Vem cá, chega mais. Chega de tanto dizer, bem melhor fazer.

E fazia e me fazia fazer porque era bom, um cheiro dengoso que fosse, um beijo ardendo, um ressonar adormecendo, um sussurrar dizendo "Delicinha...!". Ruim era ver a hora chegando, a maldita hora de ir embora. À beira do sono, quase já dormindo, soluço domado, peito acalmado. Bom era o regaço morno e perfumado, parecendo um berço, me acolhendo, me estreitando, sugerindo de novo só pra atiçar.

À beira do sono, querendo me entregar, me render incondicionalmente, mas lutando para não pegar o telefone e ligar, mesmo sem dizer nada, só para escutar um "oi" capenga, sem o "meu amorzinho" que o tempo levou. Invento uma vontade de beber água, vou e na volta espio pela janela. A rua larga sumiu, agora é um beco sem saída, bem longe, do outro lado do mundo, onde muitas vezes demorei a dormir...

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