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Estrelas Esquecidas: Um band-aid no coração

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 30.12.2017

À primeira vista, até parece a repetição de um carpintejar. Não, não é. Existe uma espécie de feitiço nas lembranças marcantes transformadas em saudades insistentes, chatas até. Essas lembranças grudam feito carrapicho, fácil de ficar na roupa e difícil de arrancar. Pior que velcro. Em anos passados, pela mesma época, até procurei inventar motivos leves para entrar o ano novo mais alegre. Estava sendo falso e só descobri ontem, vendo um seriado alemão, Dark, onde Einstein era citado: "A diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão...".

Faz sentido. O tempo é linear e avança uniformemente para o infinito. Somos meros e insignificantes passageiros desse trem que nunca atrasa, nunca espera e nem tem preferências por absolutamente ninguém. Somente os sábios aparentam saber usá-lo meditando, buscando respostas para aceitar a experiência fantástica de viver. Não seria perda de tempo ficar sentado na posição de lótus, quase sem respirar, num alheamento a tudo? Sei não. Eles têm a resposta e aparentam tranquilidade.

Os bons momentos nas vidas de cada pessoa se juntam para formar lembranças boas de recordar, de pensar que podem se repetir. Ilusão! Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez, o rio já não é o mesmo nem tão pouco o homem - segundo Heráclito de Éfeso. Quando um homem sai dos braços de uma mulher ou da cama que dividiu com ela, ao voltar à noite, no dia seguinte, ou de uma viagem, é como voltar ao rio. Ambos tiveram tempo de refletir e nenhum dos dois tem a mesma medida do que foi bom ou do que sentiu carência.

Viver em harmonia depende do cuidado e das atenções que se dispensa a quem se quer bem, mesmo abrindo mão de certos confortos e hábitos, para não comprometer as reservas de futuro do quinhão de cada um que a cada dia diminuem. É isso mesmo, pois tem pouca valia apegar-se às promessas de eternidade. Não há como escapar das surpresas ruins que fazem parte do jogo da vida. Fim de ano é sempre uma boa época de refletir muito além da roupa do Réveillon ou do champanhe que deixará uma ressaca boa ou péssima no primeiro dia no ano que começará daqui a pouco.

Para o tempo que já existia antes mesmo de existir o próprio universo - e olhe que ele foi formado há mais de 14 bilhões de anos -, somos menos que um grão de areia de todas as praias do mundo: de Bali, Fiji a Jericoacoara juntas. Ou seja, nada! Desde o início de todos os tempos, o tempo a que nos habituamos a contar nos calendários ou no relógios, dos mais simples aos mais caros, esses segundos são rigorosamente iguais. A culpa é das lembranças. Delas não adianta fugir. Lembranças são feitiços que o privilégio de estar vivo nos impõe. Assim como existe o feitiço da Lua que move as emoções do românticos, o feitiço das lembranças permite, como consolo, seguir paralelo ao que elas representaram ou, quando doerem muito, colocar um band-aid no coração.

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