Coluna

Estrelas esquecidas: Um amanhecer preguiçoso

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 01.04.2017

Em algum lugar muito longe, não importa onde, não importa quando é a realidade dessa chegada se aproximar do derradeiro porto ou estação, o viajor sabe que logo será hora de partir outra vez para não ser fisgado pela vontade de ficar. Para ele, mesmo pouco afeito a crenças e qualquer fé no que quer que seja ou em quem, sabe que as preces, assim como os sonhos, nunca são atendidas ou se transformam em realidade, por isso, nunca reza, nunca ora.

Olha para as suas estrelas e conversa com elas até adormecer em paz, ainda que aparente. Sabe que as verdades são impiedosas, extenuantes, principalmente quando se descobre na outra extremidade delas, onde as culpas não perdoam e nem somem, mesmo com o mais sincero dos arrependimentos ou pedidos de perdão. Aprendeu, talvez apenas tarde, mas não tarde demais, que tudo na vida se resume em duas opções: sim e não, a mesma questão do ser e do não ser.

Essas alternativas servem para tudo porque tudo é uma questão de acomodação dos contextos nos quais ou nas quais estejam inseridos. Ali, quaisquer que tenham sido as escolhas penduradas nas extremidades de um sim agradável ou oportuno e na outra ponta, do não antipático e definitivo, quase sempre é provável que tenham surgido de definições originárias de emoções muitas vezes impulsivas, mas quem pode ser lógico numa hora dessas, de inadiáveis decisões com o coração acelerado e os olhos turvos?

É impossível fugir de certas verdades, mesmo aquelas fatalistas e determinantes que apregoam que cada um de nós já nasce com um destino definido e tudo o que acaba fazendo é segui-lo, ainda que tentemos apelar para defesas ou correções de rota com simulacros de cognição. Tudo de pouca valia!

As escolhas mais certas são sempre as mais difíceis, mesmo para os de sensibilidade mais delicada. E quando se tenta apelar para as razões aparentes dessas escolhas, esbarra-se na impossibilidade de redefinir o passado. E aí, ocorre-nos que somos ou queremos ser, vez por outra, uma ilha oportuna e salvadora depois que nos aventuramos ao mar sem atentar para as vagas traiçoeiras em tempestades que surgem do nada.

O desejo de ir ao mar para depois se aventurar na travessia de oceanos e se afastar da razão das fugas pelas cobranças sentimentais deixa sem cor a beleza dos horizontes de onde emerge o céu e deixa, sem se dar conta, de fazer perguntas pelo simples medo das respostas. Talvez eu tenha me tornado naquele que insiste em se perder em mundos estranhos porque, no fundo, não queira ser encontrado.

A verdade é que existe alguma importância nas ausências quando aquilo que as explicam pode magoar ou deixar mais dúvidas naqueles que se importam com o fugidiço. De que adianta elucubrar sobre a importância de ter o melhor relógio, quando não se pode ser dono de nenhum tempo e cada fração dele é exatamente igual? Valha-me o tempo! Já o tenho muito na algibeira imaginária das horas que vivi. Aquele que some e vai embora, mesmo que retorne um dia, carregou consigo seu tempo, o que já passou e agora apenas se aventura em um tempo que ainda nem sabe se vai ter para desfrutá-lo na medida de cada coisa possível. Uma coisa de cada vez, um novo destino de cada vez para não atrapalhar os detalhes de cada chegada e do seu todo como nas coisas simples, como a celebração de um entardecer ou a magia de um amanhecer preguiçoso do outro lado do mundo.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.