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Estrelas Esquecidas — Tudo se move como o rio Arno

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 26.08.2017

No rio Arno, de águas barrentas, que passeia por Florença, mas que nasce cristalino no Monte Falterona, nos Apeninos, a 1.358 metros acima do nível do mar, atravessa a região da Toscana e ao longo de seus 241 quilômetros também passa por Pisa até desembocar no Mar da Liguria, uma parte do Mediterrâneo, muitos homens se banharam e tiveram momentos de reflexão.

Sobre as águas dos rios, incluindo aí o Arno, Heráclito de Éfeso, (535 a.C - 475 a.C, aproximadamente), da época pré-socrática e considerado o Pai da dialética, filosofou: "nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo nem tão pouco o homem...".

Pois bem, foi no contexto florentino desse rio, sobre a ponte da Santa Trinità de onde se tem privilegiada vista da Ponte Vecchio que as lentes do fotógrafo se encantaram com o rosto de Satomi, com a sua elegância vestindo Prada, classe e discrição orientais de quem nasceu do outro lado do mundo e um dia veio, a convite do amor, assumir o sobrenome Pagneretti, por conta do marido Giorgio, filho de Mario Pagneretti, tão festejado que foi na sociedade fortalezense, mas requisitado de surpresa para preparar, com a sua maestria, pratos para as eternas ceias do Criador, servidas às mesas celestiais onde os judas de hoje não se sentam.

Giorgio não se banhou nas águas do Arno, muito menos Satomi, que com alguma frequência vem matar as saudades da cidade e das últimas raízes ligadas ao sobrenome do marido que há mais de trinta anos despediu-se dela como um elegante samurai, sentado ao lado dela, enquanto dormia, do mesmo jeito de Mario, o Pagneretti do Sabatini, seu pai, que me tratava como um "fratello" - irmão. Na noite antes das fotografias de Satomi, sentado à mesa para um jantar sem sofisticação, consegui diminuir as lágrimas de saudade de sua Selma ao propor comportados brindes com um discreto vinho da casa Antinori enquanto lembrávamos de passagens sempre alegres de quem soube, como poucos, plantar saudades sinceras.

Mas, como defendiam os filósofos de Mileto, que partiam do princípio de que tudo é movimento e que nada pode parecer parado, que tudo flui, tudo se move, exceto o próprio movimento, no dia seguinte fluímos para fazer as fotografias, enquanto o Arno continuava serpenteando debaixo das pontes de Florença, Selma foi à missa pelo dia do aniversário do Mario, Satomi voltou para o Japão e eu retornei às minhas estradas sem nome. Os filósofos tinham razão: tudo se move! Nós nunca somos os mesmos, nem quando fotografamos sobre as pontes de Florença. (San Fedele, às margens do Lago de Como, Itália, agosto de 2017).

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