Coluna

Estrelas Esquecidas: sonhos cada vez mais distantes

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 26.05.2018

Acho que desde Adão, digamos assim, o ser humano sonha. Muitas vezes, os sonhos se transformam em pesadelos, mas pesadelos são vírus ou invasão de hackers tentando estragar o repouso da alma, o descanso do espírito ou uma serena pausa para corpo se recompor. Sonha-se com tudo, como se passagens recentes do cotidiano ou restos de lembranças que nem sabíamos que existiam. E por falar em existiam, certa vez, em Paris, ali, nas proximidades da Catedral de Notre Dame, caminhei por uma rua anônima, dessas sem importância nos roteiros turísticos, e tive a nítida impressão de já ter estado ali - um estranho déjà vu que nunca esqueci. Coisas impossíveis de entender e muito menos de explicar.

Pois bem, retomando. O homem - e homem aqui, é apenas uma figura para designar o ser humano - sonha com tudo, inclusive os mil lugares para ver antes de morrer, como os vinhos e outras mil coisas que se seguiram depois do sucesso do primeiro livro sobre mil coisas que nem lembro mais sobre o que o livro tratava. Depois, teve os Cinquenta Tons De Cinza, e depois, tome mais tons de cinza até que cansou, não pelas bizarrices e/ou invencionices de causar inveja ao mais criativo dos Kama Sutra. Mesmo assim, quem não sonhou estar naqueles primeiros cinza de fazer corar o mais afoito, moleque ou atrevido dos amantes? Para os protagonistas, par perfeito, diga-se de passagem, embora o rapazinho lá seja meio bobão por conta dos traumas, o filme até diverte e para alguns poucos privilegiados que conseguiram viver a vida, tirante as sessões de pancadaria, mesmo consentidas através de contrato bizarro, teve quem recordasse com os seus botões: "... Ah, isso eu fiz...!", mas virou fumaça quando tudo acabou e vez por outra vem um "vale a pena ver de novo", nem que seja em sonho. E, o pior, quando o cara está em outra, já acreditando que aquele tudo de bom, cheio de tons de cinza, vermelho, azul, verde, um arco-íris inteiro de um dia desfez-se num furacão detido junto e misturado e os destroços são terríveis de recordar.

Mas como o ser humano tem uma capacidade incrível de recompor-se, reinventar-se, levantar, sacudir a poeira e dar uma volta por cima, mesmo apenas com os cinquenta por cento ou menos ainda determinado pelo juiz. Não importa, não vem ao caso. Depois da tempestade, vem sempre a bonança. E sonho é uma coisa boa. Devem existir mil sonhos para se sonhar antes de morrer e alguns deles não são assim tão difíceis de se tornar realidade.

A cada vez que o prêmio da mega sena acumula, o "sonhômetro" atinge níveis estratosféricos. Embora as possibilidades de um "infeliz" ganhar sozinho sejam imorais de tão ínfimas, todo mundo sonha, até mesmo quem não jogou. Num sonho desautorizado, sonha que jogou, chega a ver os números com nitidez, e, aí, acorda e cai na realidade. Nos tempos da ingenuidade, o menino sonhava com o tal do Papai Noel e geralmente era esquecido por ele porque o verdadeiro velhinho, digamos assim, era muito modesto e não tinha renas, trenó e muito menos os presentes sonhados e pedidos ingenuamente por meio de cartas que nunca chegavam, ou, se chegavam até ele, eram ignoradas por motivos justos, mas no ano seguinte o sonho não morria porque a esperança cuidava dele.

Os sonhos de hoje passam longe daqueles de um dia. São mais caros, sofisticados, mais difíceis de serem realizados, pelo menos para a maioria. Sonhar com um Brasil que se deseja para o futuro exemplo tem sido confessado explicitamente para um Papai Noel que ainda não tem cara e, por mais simples que sejam, conforme mostram os sonhadores, nas molduras humildes de suas frustrações e remotas esperanças, nem deviam ser pedidos, porque, em outros países onde os direitos são as coisas certas, esses sonhos são realizações diárias, já vêm no pacote do respeito.

Vergonha na cara, por exemplo, não deveria ser um sonho, mas aqui, nas nossa terra, pelas ruas perigosas e esquinas assassinas, nas favelas crônicas e bairros da periferia, os sonhos são estranhos, os direitos são estranhos, as cobranças são estranhas e exorbitantes. Vergonha na cara pouca gente tem, basta ver os flagrantes, as desculpas esfarrapadas, as instâncias que se multiplicam, a leniência que agride, isso para não mencionar os embargos infringentes, os embargos de declaração, os embargos dos embargos, os cinquenta tons de outros embargos e por aí vai, dificultando a vida de quem, aos poucos, vai perdendo o sono e consequentemente a paz para dormir e por fim, o direito de sonhar.

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