Coluna

Estrelas Esquecidas: se arrependimento matasse

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 02.06.2018

Existem tipos de insônia que são classificados de acordo com o tempo de duração e causa. Existem a insônia primária - quando não há nenhuma doença causando a insônia, e a secundária, quando é sintoma de alguma condição médica, distúrbio mental ou efeito colateral de alguma droga. Descobrir o que causa a insônia é o primeiro passo parasse livrar dela e aí é que está o problema maior: quando você sabe a causa, conhece as formas em todos os detalhes, incluindo todos, sente o cheiro, a maciez e... Puxa, vida! - os apelidos dengosos que ecoam dentro da cabeça sem parar, às vezes uma noite inteira, até o raiar do dia. Culpa-se o estresse, por exemplo, que é qualquer tipo de evento êxtero-superior que altere o estado de equilíbrio do organismo. Ora, quando uma pessoa era interna no coração e para mundo exterior, seja lá por qual motivo, principalmente se não saiu com a nossa aquiescência, como uma proposta melhor, mais atraente, mais vantajosa, aí é que são elas e o sono não vem, noite após noite, denunciando a condição miserável do indivíduo através de olheiras ou cara de quem rói a corda intermitentemente. Evento externo, convenhamos, é quando a pessoa ficou só as no dia anterior achava-se a cereja do bolo. Nem era, mas não sabia, nem desconfiava. Numa busca eletrônica sobre a insônia e suas causas, encontram-se mil explicações, como problemas no trabalho, situações maçantes que causam exaustão que podem impedir uma boa noite sono para se recuperar de tudo isso. Existem as insônias intermitentes, aquelas que acontecem eventualmente: quando você pensa que se livrou das lembrança, quando já está em outra ou na maior gandaia e, de repente, sente o perfume que ficou só nos lençóis que nunca mais mandou lavar mas o tempo se encarregou de apagar. Pouca valia! Certos cheiros ficam incrustados até na alma. Dizem os entendidos que basta saber que o estresse mental pode ser a causa dessa insônia que, felizmente, simples mudanças de hábitos rotineiros podem solucionar o problema. Discordo! Um amigo meu mudou até de endereço, de número de manequim, de namorada e não adiantou p... Nenhuma - desculpem a insinuação da chulice - aqui e ali, no meio do nada, ele não consegue dormir. Olha, em um artigo no Google, diziam que locais desconfortáveis, barulhentos e com muita luz dificultam a hora de adormecer. Em casos específicos, como esse, do meu amigo, nem mesmo a bagunça desrespeitosa de alguns jovens alterados que bebem todas, num pub da moda, a cinquenta metros do quarto desse meu amigo seria motivo para tirar-lhe o sono, mas quando a lembrança daquela mocinha chega sem avisar e se planta ali, na cabeceira da cama, não tem jeito. É um tal de vira para um lado, vira para o outro, coloca um travesseiro no rosto, vira de bruços e nada. Olho aceso! Pega um livro, lê duas páginas, liga a TV, põe headphones, escuta Karunesh... E necas! E sabe qual é o pior de tudo? No dia seguinte, por uma desagradável coincidência, na fila do caixa do supermercado paralela à sua, a sua insônia estava lá, alegre e faceira a razão da sua insônia, abraçada a uma nova realidade, com rosto brilhando de felicidade, cara de quem dormiu super bem. Aliás, "dormiu" aqui é força de expressão. Ansiedade, stress pós-traumático, esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo, etc., tudo junto e misturado está nesse pacote. Se arrependimento matasse, esse meu amigo não teria ido pesquisar sobre insônia.

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