COLUNA

Estrelas esquecidas: Refúgio no fim do mundo

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 05.08.2017

Cada um de nós, em algum momento da vida, até mesmo quando criança, sonhava com um refúgio, um esconderijo, um lugar para se sentir seguro, protegido. A rota de fuga da criança é bem simples, quase ali. Em tempos que o tempo apressado afastou para bem longe, com o passar dos anos, era uma casa imaginária num galho da mangueira ou no alto da serra que só se via de longe ou que existia nos filmes de caubói, em preto e branco. Depois, bem depois, quando a realidade dos Natais tirou a graça da crença do Papai Noel e a voz engrossou, as meninas viraram mocinhas, os refúgios habitavam diários guardados debaixo de sete chaves ou cheios de códigos difíceis de decifrar ou nem tanto.

Um refúgio! Um lugar muito pessoal, de difícil acesso mesmo aos mais próximos, onde sempre foi e ainda é um espaço onde se pode gritar todos os gritos, chorar o que tiver para chorar, lamber as feridas dos machucados sentimentais, gemer com as dores do desamor ou assumir as culpas grandes dos erros sem jeito ou ruminar arrependimentos só para sofrer em dobro por conta de todos os "se" que poderiam ter mudado tudo. Pouca valia, só o som do arrastar de velhas correntes, como fazem os fantasmas das tolices que achamos ser o paraíso onde as fantasias acreditaram em mágica, em eternidade ou em cada "para sempre", seja teu ou tua, antes do nome.

É dentro desses esconderijos que podemos assumir todos os incômodos da vida passada ou mesmo da recente e cujo amanhã dá trabalho mudar o roteiro do romance que assumimos escrever, razão pela qual diz a canção que "cada um de nós carrega a sua história e tem o dom de ser capaz" - talvez nem seja o dom, mas precisa, isso sim, ter força e determinação para seguir em frente, não importa quão em frente seja o caminho até o esconderijo.

Vez por outra, quando as dúvidas se juntam, se dão as mãos e se acumpliciam, as verdades mostram a trilha por onde a verdade nua e crua costuma mostrar que faltou um pouco mais de razão para ganhar da emoção, seja ela qual for. Quantas vezes, na dúvida, ao invés de pararmos ou mesmo diminuir a marcha ou dizer um "não" limpo e seco, preferimos a surdez momentânea da insensatez e de repente ficou tarde demais e aí já era?

Toda dúvida acredita na sorte e se embriaga com uma taça a mais, um beijo a mais, um abraço difícil de impedir e que sempre se refestela nas camas irresponsáveis do curtir o momento... Os refúgios adultos sempre estão muito longe para não incomodar os amigos, principalmente os que nos sugeriram abrir os olhos e apurar os ouvidos para não cair no canto das sereias ou fraquejar diante do olhar magnético da jiboia. Tarde demais é uma mala pesada que carregamos para esses refúgios. É conversa fiada de quem diz ser fácil deixar o ontem para trás. Mentira!

Um refúgio no fim do mundo tem lá a sua paz. Pode ser pouca, mas tem. Pode ser cercada de voluntária solidão, mas tem pouco incômodo. Nada disso significa desistir de nada, mas para pura e simplesmente poder apagar a luz, qualquer luz e deixar-se adormecer sem ligar mais para o ontem de uma vida inteira ou o que ainda restar dela no alto da serra, mais próximo das estrelas.

Varsóvia, Polônia, agosto de 2017

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