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Estrelas Esquecidas: Pensamentos e obras

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 02.09.2017

À guisa de introito poder-se-ia dizer que este é o pacote completo dos pecados. O pensamento é livre e a censura é pessoal. Vai ver seja exatamente por isso que talvez seja o pior dos pecados diante desse Deus rigoroso que amedronta, apavora, cobra com rigor comportamentos, ações, atitudes concretas e suas consequências, palavras que vão da injúria, ofensas, fuxicos, insinuações, por aí.

As obras são limitadas ao contexto da materialização dos atos. A consequência dessas obras fazem parte dos agravantes ou atenuantes, dependendo da hermenêutica de cada acusador, defensor e para qual lado pende o prato da balança. A "dura Lex, sed Lex" nem sempre é tão dura e muito menos é, na verdade, uma "Lex" equânime.

Desejar, por exemplo, começa com a visão do objeto. Pode-se desejar tudo. Comprar é outra coisa. Pois bem, passando das divagações e rodeios com palavras, vamos aos fatos. Este verão de 2017, na Europa, está sendo uma antevisão do inferno de tão quente e sufocante.

A beleza das igrejas no circuito turístico de Firenze começava a cansar as minhas lentes, mas decidi-me por entrar naquela muito mais para abrigar-me do inferno escaldante das ruas sem um mínimo de verde. Entrei com a discrição de uma sombra e postei-me atrás de uma coluna para apoiar a câmara e fazer algumas fotos sem precisar usar flash ou tripé. Vi quando um padre, ainda jovem, ajoelhou-se contrito diante do altar, fez o sinal da cruz e dirigiu-se ao concessionário onde os pecados são confessados, os castigos sentenciados e as culpas desvanacem no chão frio do templo. Sempre foi assim. Deus não guarda mágoas nem rancor ou se ginga, por pior que sejam as palavras proferidas.

Pois bem, vinha o padre jovem, cabisbaixo, quando entrou a mocinha loura. As linhas bem definidas na silhueta perfeita eram a visão mais nítida que podia se esperar da perfeita criação em momento de inspiração.

O padre viu. Eu vi o padre. O padre não viu que o vi apressar o passo até o confessionário, como se pressentisse que o pecado precisava desabafar. A mocinha viu o padre jovem, mas não viu que eu vi os dois. O padre jovem entrou no espaço santificado de onde tinha comunicação com o criador de todas as coisas, inclusive da mocinha.

Vi quando a mocinha ajoelhou-se e, igualmente contrito, cruzou as mãos em respeitoso gesto para falar de seus malfeitos. Fazia calor do lado de fora. Fazia silêncio sepulcral dentro da igreja. Posso estar enganado, mas a curiosidade pareceu levar-me a acreditar que em algum momento a mocinha teria dito com alguma intimidade: "não, seu padre, isso eu não fiz..." E depois, o som de um discreto risinho cúmplice. "Ah, tá...!" - teria dito o jovem sacerdote.

A confissão não teria durado dez minutos. Um castigo de pouco rigor foi, digamos, imposto: meia dúzia de Ave Maria, dois Pai Nosso e tudo estaria zerado na conta corrente da mocinha. O jovem padre ainda ficou um tempo dentro do seu quadradinho inviolável.

A mocinha cumpriu a pouca pena, benzeu-se e foi saindo ao mesmo tempo que o padre. Cruzaram no meio do caminho. Ela saindo; ele rumo ao altar. A mocinha olhou pra ele piscou um dos olhos azuis e saiu, mas não me viu vendo o que vi. O padre abaixou a cabeça e isso eu vi também. A mocinha sumiu pela porta. O padre foi ajoelhar-se bem de frente a um Cristo cansado e pude escutar com absoluta nitidez: "perdoai-me, Senhor, porque pequei muitas vezes, por pensamentos, principalmente pensamentos, palavras e obras. Vi quando ele encostou o queixo sobre as mãos e repetiu, dando ênfase a "pensamentos...!" Enquanto a mocinha, lépida e fagueira seguia entre os mortais seu caminho, deixando para trás todas as culpa que já não lhe atormentavam mais.

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