Coluna

Estrelas Esquecidas: Pela janela do trem

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 04.11.2017

Já faz tempo, desde a última sexta-feira divertida. Vez por outra, dizia que ia sumir por uns tempos, ir lá fora inventar desafios para mim. Desnecessário às vistas alheias, mas o tempo me insultava, fazia provocações na calada dos momentos sozinho. E aí, marcava o dia e ia embora, deixando meu lugar à mesa. Desenvolvi o hábito de me despedir, a cada partida, com um "até um dia", "ou não", o que pode até parecer dramático, mas não é nem nunca pretendeu ser. É a realidade.

As pessoas mais normais e principalmente as cheias de fé costumam dizer "até a volta... Se Deus quiser!". E se Ele tiver lá os motivos para não querer mais? Em inglês, as despedidas são simples: é "gooodbye" mesmo ou, no máximo, um "hope see you again". Espero ver você de novo não é uma certeza. Quem parte leva saudade de alguém que fica chorando de dor - diz a letra da música antiga que os jovens nunca ao menos ouviram falar - e por aí vai.

Os japoneses, mais comedidos, ficam no "sayonara", que é adeus e pronto, simples, objetivo e radical. Cada um tem seu jeito de dizer e sente dentro do peito o tamanho da dor saudável a que fez jus. Um "vá e fique por lá" é a despedida murmurada por conta das raivas passageiras, ou não. "Tomara que morra" é mais profundo e ódio quase santo, mas aí é preciso ter merecido.

Já faz tempo que marquei um novo norte, sempre cada vez bem distante, arrumei a mochila e peguei a estrada. Precisa ficar tanto tempo? - perguntaram em casa. "Cuidado! Dá notícias...". Logo o cuidado é deixado de lado e dar notícias ficou fácil, é quase não ter partido e pode até ser chato "uotisappar" todo dia. Melhor juntar assunto ou novidades mesmo. Novidade é pra quem fica. Quem está, onde quer que seja, passa a fazer parte do cotidiano alheio e, aqui e ali, paga ingresso para entrar.

Retomando. Já faz tempo desde a última sexta-feira, a última taça e o último passar de régua, fechando a última conta. Ficou a cadeira vazia, depois os brindes regados a lembranças de passagens divertidas e o esmaecer normal da falta que faz a se esticar tempo afora. Acordei com sede por conta das caminhadas ao sol, debaixo de muito calor e umidade. Aqui, nos confins do Vietnam, mais precisamente Da Lat, em cima das montanhas a leste de Saugon, que dificilmente será o destino de bom senso do normais, logo depois da quentura nessa época, cai cada pé-d'água de assustar.

Fui dormir beirando o desidratado e o corpo acordou cobrando. Era noite de sexta-feira. Pior dia para acordar com sede longe da mesa alegre e divertida. Pensei na minha cadeira, no pão quente e na primeira taça. Senti uma saudade dessas. Nem cobrei se estava fazendo falta. Era quase certeza que sim. Cadeiras vazias incomodam. A escolha dos novos horizontes onde é quase sempre o dia seguinte não foi uma imposição, mas uma escolha. Descobri que depois das missões cumpridas após mais de quarenta anos de responsabilidades, tinha chegado a hora de ser um responsável nas ousadias para não amofinanar-me.

As sexta-feiras remetiam a sair da rotina, do claustro necessário das rotinas de sobrevivência. Sexta-feiras quase sagradas. Distantes e eu longe demais. Daqui a pouco pego outro ônibus. Na placa, um destino difícil de pronunciar, mas já comprei o bilhete do trem que me levará à última fronteira dessas distâncias todas somadas e depois vou encostar a cabeça na janela desse trem da volta e sonhar sentado à minha cadeira das sextas, com mil histórias divertidas para contar ou apenas degustar as boas e sadias taças de sempre.

Da Lat, Vietnam - Outubro'2017.

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