Coluna

Estrelas Esquecidas: Parentesco desnecessário

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 03.03.2018

O pub, em si, não incomoda por conta das músicas sertanejas que ecoam dentro do estabelecimento para a alegria de jovens que se divertem até o sol raiar das quintas, sextas e sábados. Quando esses jovens bonitos, saudáveis e bem intencionados - diga-se de passagem - chegam, é de se ver. Na fila para entrar até parecem aquela para receber a hóstia, de tão comportados e contritos. A bem da verdade, a diferença está nas intenções. Quem está na fila para receber o símbolo do perdão pelos pecados confessados, está ali para se redimir. Já na fila para entrar no templo da descontração, está ali imaginando os pecados que pretendem cometer. Cada um tem o livre arbítrio para aproximar-se dos novos limites impostos pelas mulheres que se empoderaram e podem reagir ao menor sinal de abuso.

Nesses dias de fins de semana, depois de quatro horas da manhã, pontualmente, depois de passar a régua e fechar a conta, alguns desses jovens mais afoitos parecem ter sido acometidos de surdez por conta do volume das músicas tocadas no interior da casa divertida. Praticamente gritam para se comunicar com o amigo que está a meio metro dele. Os que tiram a camisa para mostrar o abdômen sarado como derradeira tentativa para chamar a atenção das mocinhas que passaram da conta nas doses sorvidas, coisa que não conseguiram para impressionar no tempo regulamentar depois de esgotadas as últimas performances pobres de criatividade, pedem seus veículos aos manobristas e, mesmo passivos de serem reprovados no teste do bafômetro, protagonizam o espetáculo bizarro de ligarem o volume do som de suas máquinas sem se importar com quem dorme do outro lado da avenida; depois aceleram como se fosse decolar e somem não sem antes cantar pneu. Sozinhos!

As mocinhas empoderadas, mesmo sem conseguir andar em linha reta, parecem não estar a fim de arriscar suas vidas lindas e perfumadas. Vez por outra, quando o exagero ultrapassa os limites da tolerância, alguém chama a polícia e nem precisa confronto ou abordagem aos rapazes semidespidos. Bastam as luzes do giroflex das viaturas e tudo volta à calma. Mas é isso mesmo. Os tempos são outros, o modismo é outro. Os valores são outros e as bandeiras são outras. Para se ter uma ideia, não se vê nenhum movimento por parte da oposição radical para fazer um movimento em defesa das crianças vítimas da violência diária praticada por bandidos nos morros do Rio ou nas periferias das cidades tomadas por traficantes, mas foi só falar em por um termo à verdadeira guerrilha dos morros por conta da disputa pelo controle do tráfico que os, digamos, Direitos Humanos, estão fazendo exigência para que não se cometam arbitrariedades contra quem todo dia mata pessoas de bem.

Não pode. Bandido não aceita. Não, não, não misturamos uma coisa com a outra nem fugimos ao tema da nossa proposta de hoje. O mundo mudou muito e quem não gostar é só pedir para sair, mudar-se para a Síria, por exemplo, onde os níveis de violência são bem menores. Voltando ao pub, dias desses resolvi descer para olhar mais de perto uma confusão que poderia descambar para troca de tabefes ou até mesmo tiro. A coisa durou pouco e foi só chegar lá, o tempo para percorrer 80 metros, tinha acabado. E aí, uma mocinha, com uma garrafa de cerveja na mão e um cigarro na outra olhou para mim e perguntou: "Tio, o senhor tem horas...?". " Não, minha filha, tenho décadas!". E voltei na mesma pisada, um tanto constrangido por conta daquele parentesco desnecessário. O mundo mudou muito.

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