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Estrelas Esquecidas: Os medos da solidão

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 16.09.2017

Os medos da solidão não existem por conta dos silêncios pesados do escuro ou das lembranças que se arrastam vestidas de saudades sem jeito. São outros esses medos. Estão nas escadas traiçoeiras, em lugares distantes onde se é apenas um número de passaporte, ou nas banheiras escorregadias onde não se conta mais que um número de quarto; onde se é um hóspede que veio de longe, sem vínculos, sem história.

Depois de ver uma série de reportagens produzidas por uma estação de televisão de Florença, na Itália, mostrando as façanhas de uma equipe de repórteres no Afeganistão, eu me enchi de sei-lá-o-que porque fiz muito mais, e sozinho. O repórter chefe da equipe chegou a florear os perigos, que na realidade existem hoje, mas foram muito mais perigos nas vezes que por lá andei. Eles estiveram no Vale do Bamiyan e filmaram os imensos vazios onde antes estavam os Budas gigante de Bamiyan, mas eu subi por dentro das escadas estreitas que existem nas laterais de cada nicho e vi, lá do alto, o triste vazio onde antes os imensos Budas contemplavam a Rota da Seda. Tudo destruído pelo radicalismo dos talibãs, autoproclamados senhores inflexíveis de todas as crenças a reunir, em um só profeta, verdade universal.

Fui até lá sozinho e fazia frio. Tive sorte de sobreviver quando caminhei por um caminho onde existiam avisos de "terreno minado" escritos em persa e eu não sabia o que significava. Nem mesmo o medo pós-quase-tragédia eu provei dele, mas senti medo quando o coração acelerou sem motivo e eu estava dentro do quarto de hotel modesto perto do Himalaia, no Nepal. Senti medo, sim, porque uma vez, curioso, fui ler sobre uma tal de válvula mitral, uma coisinha de nada, como uma porteira vigilante, controladora e incansável a deixar passar o sangue pelos meandros dos átrios, as duas cavidades, uma esquerda e outra direita, situadas acima dos ventrículos homolaterais, responsável pelo ritmo que acelera ao sabor das emoções.

Não havia nada que justificasse o chilique ou perrengue da válvula mitral, esse fenômeno patológico em que se produz zona de necrose consequente à hipoxia. Morrer, tudo bem, mas morrer como desconhecido, mesmo às faldas do Everest, não teria a menor graça, e o medo era de lembrar, nos derradeiros segundos de consciência, de uma etiqueta no dedão do pé sem menções honrosas, mesmo que fossem os adjetivos jocosos para qualificar o aventureiro atrevido e amante dos horizontes estranhos.

Por via das dúvidas, carrego pendurada ao meu pescoço, numa corrente de metal, uma placa de aço com o meu nome gravado, o tipo sanguíneo e o fator Rh. Logo abaixo, "Photographer" e "Brazilian Press". Quando a vida desistir de mim, fica a placa de aço como testemunha de que terei deixado para morrer por último. Será a última coisa que farei depois de ter feito tudo e não quero deixar por menos. Dos perigos da vida, nem lembro mais, e deles nunca senti medo, mas de rolar escada abaixo, como me aconteceu nos confins do Miyanmar, de escorregar dentro da banheira de um quarto simples das pousadas quase anônimas ao longo das minhas estradas e dos humores da válvula mitral, eu morro de medo quando estou no aconchego da solidão voluntária pelo mundo. Tóquio, Japão, setembro de 2017.

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