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Estrelas Esquecidas : Ódios mortais

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 28.04.2018

Parafraseando o ministro Marco Aurélio, da outra turma do STF, direi: "tempos estranhos". E acrescento: nada a ver com a intricada hermenêutica que divide o colegiado supremo do próprio, em razão das decisões que acabam por recorrer ao Voto de Minerva da presidente da turma. Pois bem, tempos estranho.

Estava eu conversando com um amigo, digamos assim, quando se aproximou um outro amigo comum a nós dois nos tempos da infância simples lá pros lados da 13 de Maio e auge do Maguary. Fizemos uma festa com um abraço, tratando-nos pelos apelidos de meninos que éramos e, quando meus dois amigos se olharam, o tempo mudou. Como por mágica, o sorriso no rosto do primeiro sumiu e a cara do que chegou amarrou-se, ao ponto de não sobrar espaço nem para um simples "oi" entre ambos.

Não entendi, mas não questionei em respeito a um constrangimento pesado acompanhado de um silêncio momentâneo que me deixou sem jeito. O que chegou depois foi se afastando quase de imediato enquanto se despedia dizendo "a gente se fala depois". E foi embora, sem olhar para trás, carregando consigo a oportunidade de lembramos dos tempos que jogávamos bola e invadíamos o pomar da dona Dagmar, na rua Marechal Deodoro, perto do Estádio Presidente Vargas.

"Que foi que aconteceu, vocês brigaram?" - quis saber. E aí, fiquei sabendo a razão: preferências gastronômicas radicalmente opostas. Um, era adepto de uma boa coxinha de camarão com catupiry, da Balu; o outro, bandeara-se para os populares sanduíches de mortadela, mesmo sem nunca ter precisado dos trinta dinheiros para acompanhar a galera e radicalizar geral.

A ruptura aconteceu na Praça Portugal, no auge dos gritos de "golpistas" por conta da cassação da "presidenta" Dilma, quando os dois se encontraram com camisas e bandeiras diferentes. Não se deram chance nem para dialogar, trocar ideias, nada. Quando se reconheceram, já havia ódio de um lado e deboche do outro. Ninguém deve empunhar uma boa coxinha do dia acompanhada de uma taça de champanha contra um sanduíche simples.

A razão de um, dava-se ao direito de fazer gozação, quase um deboche, pouco caso; a razão do outro, inflamada por bolsas disso e bolsas daquilo, perigando sumirem ladeira abaixo por conta de escândalos decorrentes de operações policiais midiáticas de nomes estranhos. Tempos estranhos e cada vez mais estranhos, ao ponto de se evidenciar, ao vivo e em cores, para todo o País, a divisão dos membros supremos de um tribunal onde ninguém come mortadela ou demonstra preferência pelos salgadinhos da dona Balu.

As duas correntes já mostraram a que vieram e a população tem-se mostrado bastante conhecedora da "arte" de se insultar, menosprezar, divulgar fakenews e se divertir com a desgraça um do outro. Desculpem o lado A e o lado B, mas eu prefiro ficar à parte, degustando, aqui e ali, uma boa taça de vinho, cuidando de um pequeno jardim na varanda do meu lugar e me divertindo com a dança nervosa dos beija-flores que descobriram o bebedouro que instalei para eles.

Montei uma pequena mesa bem diante da janela onde tomo meu café da manhã e bebo um chá quase pontual no fim da tarde, nesses tempos de aposentadoria. Enquanto isso, lá embaixo, tempos estranhos acontecem, os ódios se consolidam, cada razão grita com mais razão, ninguém entende nada, o dólar ruma para cinco reais, o Lula, coitado, continua preso, e aqueles que se aproveitaram da ingenuidade inicial dele fingem que são solidários, nem torcem para o Aécio ser preso ou dizem que eleição sem o menino de Minas é golpe.

Tempos estranhos, esses que dão importância ao dedinho machucado do Neymar; das declarações de amor do Trump pelo Macron; e da mudança radical de comportamento do Kim Jong-un. Os ódios mortais dos grandões arrefeceram e logo logo estarão em clima de lua de mel nuclear, enquanto do lado de cá, os olhos continuam injetados de sangue por conta desse ódio tupiniquim.

Meus dois amigos de infância se odeiam e não posso tomar partido, mesmo porque não torço por nenhum. Gosto das coxinhas da dona Balu e traço, sem problema, um bom sanduíche de mortadela com carioquinha bem quentinha, sem frescura, sem bandeira, sem grito, sem ódio. Tempos estranhos...!

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