Coluna

Estrelas Esquecidas: O zero absoluto

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 06.01.2018

O zero absoluto nada tem a ver com aquela temperatura onde a água passa de seu estado líquido para o sólido. O zero absoluto é bem mais abaixo e, numa escala progressiva, seria a temperatura de menor energia possível. Para melhor compreensão, no zero absoluto todas as moléculas de qualquer material estariam paradas. Qualquer calor que faça elevar essa temperatura, as moléculas voltariam a vibrar e aí elas ganhariam vida, mesmo em suas formas mais estranhas.

Cientistas já atingiram temperaturas muito próximas do zero absoluto, onde a matéria exibe efeitos quânticos como, por exemplo, a supercondutividade e a superfluidez. Perguntar-se-ia: qual o motivo ou a importância dessa abordagem sobre zero absoluto em uma crônica de proposta romântica?

Resposta: o processo para atingir o zero absoluto nas moléculas dos sentimentos é enfadonhamente lento e complicado; leva tempo. A temperatura mais tórrida de uma paixão leva menos. Basta um olhar cheio de insinuações cúmplices e tudo fica quente da cabeça aos pés, inclusive tudo. Com o passar do tempo e a acomodação das moléculas sentimentais que se fundiram nos abraços e beijos, incluindo aí os melhores detalhes, a temperatura arrefece com tendência passageira para atender os interesses de ambos ou de uma das partes, mas logo tende a zero, mas nunca absoluto e definitivo.

Nesse ponto, tudo tende ao ostracismo, ao enfado, enjoo e as moléculas praticamente não vibram mais. Mas, vai que uma das partes fica presa ao melhor do amor comatoso e tenta agarrar-se ao nada da indiferença da outra parte. Ora, nas somas, positivo com positivo fica positivo. Negativo com positivo resulta em negativo, bem assim. Dá em nada. Faz-se de tudo para esquecer. Apela-se até para milagres e faz-se promessas. Nunca atendidas.

O tempo é um santo remédio, apregoa-se - e o que ficou arrastando uma asa ou mergulhado em sofrida roedeira até consegue embaçar as lembranças e colocar em coma induzido as saudades. Acontece que, a diferença entre tirar do zero absoluto uma molécula e fazê-la vibrar como em seu estado natural leva um tempo enorme. No homem, um dia ser apaixonado, roedor, basta o rastro perfumado que outra mulher deixou na rua e todas as moléculas de suas emoções queimam em brasa no coração, no peito, na alma e não tem choro que apague e nem mesmo a ciência desse sentimento quântico explica.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.