Coluna

Estrelas esquecidas: O vinho nas reflexões estocásticas

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 06.05.2017

São as necessidades complexas que levam a refletir sobre situações e dificuldades sentimentais que podem fazer o homem, mesmo em meio a uma multidão, alheiar-se a tudo e mergulhar fundo em contextos geralmente confusos e provocadores com o cenho franzido. Para os circunstantes, ele está no mundo da Lua. A estocástica nada mais é que a habilidade para mirar, conjecturar, determinar, através das leis das probabilidades, inclusive das alternativas, a melhor saída.

O grego Iannis Xenakis (1922-2001) lançou uma técnica de composição com a finalidade de opor-se ao formalismo da música serial, no qual ele introduzia a teoria matemática das probabilidades, como os resultados das equações de muitas variáveis. Mesmo muito complexas, essas equações chegam a um resultado lógico que só depois de muito esforço o leigo é obrigado a aceitar pelo simples fato da matemática ser uma ciência fria, mas exata.

A hermenêutica musical é determinada pelo gosto de cada um e gosto não se discute ou se impõe. Sentimentos não são baseados em nenhuma ciência, não podem ser quantificados, nem medidos ou calculados. "Gosto muito de você" é apenas uma frase que não possibilita entender a profundidade desse adjetivo que expressa o que existe em grande número ou quantidade e que pode ser também um pronome indefinido ou um advérbio, mas aí é gramática pura a ocultar essas variáveis ou a estocástica oportuna que se evidencia ao bel prazer daquele que reflete ou elocubra.

Imagine uma criança, na plenitude de sua inocência, confessar ao pai que gosta dele do "chão ao céu" - nada mais bonito, profundo, sincero, embora essa distância ou quantidade possa ser mensurada, quantificada, onde cabe o infinito. Agora, repare no homem sentado sozinho à mesa de um restaurante. Nada mais triste que essa imagem! Aquele que observa de fora, pode conjecturar se ele está a esperar alguém ou circunstancialmente sozinho. Depende da mesa posta, do número de taças. Mas se estão diante dele apenas uma taça, um prato e um único jogo de talher, leva a concluir ele comerá sozinho.

Na companhia de suas reflexões expressa em seu rosto através do olhar perdido, vago, mudando vez por outra de lugar na busca um ponto de fuga na engenharia da construção sentimental, uma perspectiva diferente em cada suspiro. Um homem não reflete em linha reta por mais objetivo que seja, por mais focado que se encontre naquilo que o preocupa e que faz parte de uma equação complexa, mas sem números determinados com sinais negativos ou positivos, dependendo de que lado estão as emoções.

Não existe o formalismo matemático na composição dos detalhes que passeiam nas reflexões de cada um. A inexistência do determinismo que a filosofia analisa como a relação entre os fenômenos que se acham ligados de modo tão rigoroso que, a um dado momento, todo fenômeno está completamente condicionado pelos que o precedem e acompanham e condiciona com o mesmo rigor os que lhe sucedem.

Ora, sabe-se que duas coisas não se pode mudar: o passado e o futuro. O presente é uma passagem rápida que, no minuto seguinte, se transforma em fração de passado imutável e com consequências no futuro do instante seguinte. O determinismo é uma hipótese ou teoria segundo a qual as condições ambientais são os fatores determinantes das variações nas formas de organização social e nas configurações culturais. Vixe, complicou. E muito!

Refletir não é fácil, razão pela qual esse homem, sentado sozinho à mesa desse restaurante, se tentasse elocubrar com o cenho franzido no meio da multidão, terá sempre a cara de quem está no mundo da Lua. No restaurante, no entanto, pode ser visto como um homem triste e que não deve ser incomodado. Dada as variáveis dessa estocástica que não combina com o determinismo, melhor deixar tudo de lado, ler o cardápio e procurar combinar o prato escolhido com um bom vinho e degustar o resultado das uvas de boa cepa selecionadas para fazer parte do ritual de "saúde" solitário do homem consigo mesmo.

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