coluna

Estrelas Esquecidas: O problema das soluções

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 12.08.2017

De repente, um problema. Não importa qual seja, mas um problema. O tamanho, a dimensão ou a profundidade dele não importa e remete à necessidade de uma solução. Deixá-lo de lado é fazer de conta que ele não existe e postergar a solução é correr o risco de descobrir que ele cresceu e, consequentemente a solução, que bem poderia ter sido simples, esparramou-se no comodismo traiçoeiro do "depois eu resolvo". Ninguém vive de arrumar encrenca e encrenca pode ser sinônimo de problema, mas ninguém também navega com vento a favor em um mar de soluções.

Certa vez, um colega repórter casado recebeu licença, digamos assim, para participar do aniversário de um companheiro de trabalho. A festa foi boa, a bebida farta e o esticar da comemoração foi arriscado por conta da tentação de uma "ex" que se pôs formosa com o passar dos anos que não se viam. Os cabelos haviam retomado o castanho real a realçar os olhos verdes buliçosos bem acima de um decote generoso que enfeitiçava a cada arfar.

Festas demoradas entre amigos de longas datas e regadas a bebidas simples, sem sofisticação, sempre atraem afoitezas e ousadias. Ele, ainda casado; ela, separada de um marido chato, apenas conveniente e que fazia gosto da família dela. Deu no que deu, ou seja, não deu em nada e separaram-se.

Volta à festa. Pois bem, música vai, dança vem, abraça daqui, abraça dali, um festival de "beijação" e umas marcas de batom na camisa amarela. Ele nem notou. Quem chamou a atenção foi a própria tentação dos olhos verdes. "Vixe, sujei tua camisa de batom. E agora? Tua mulher vai te matar!". Ele fez cara de seguro, de indiferente e até ensaiou uma frase tipo "bobagem, tem nada, não".

A mocinha linda foi embora mais cedo e a primeira coisa que ele fez foi procurar o aniversariante e pedir ajuda para remover a evidência no colarinho. Lavou com sabonete, mas só espalhou. Era batom tipo teimoso. Passou uísque, Bombril, molhou a camisa quase toda e ainda descobriu que não era só a mancha grande, bem definida. Haviam outras menores. Fez o caminho de volta pra casa, já fora do horário permitido pelo habeas corpus preventivo, matutando como chegar em casa com a camisa molhada e suja de batom. Bom repórter que era, encontrou a solução. "Que aconteceu, amor? Cadê a sua camisa?" - Fui assaltado, minha filha! Como eu não tinha dinheiro levaram a camisa..." Passou! Ela engoliu. Engoliu até encontrar a camisa "roubada" debaixo do banco do carro comum aos dois.

Encontrei Analice em Viena, em um dia de calor infernal, mais linda que nunca! Ruiva, shortinho curtíssimo, a mesma boca tentadora. Deu-me um abraço, disse que estava morando na Alemanha com um "namorido" romeno. Contou rapidamente sobre a separação do meu colega. Analice nunca foi um problema, diga-se de passagem. Problemas são certas soluções. Viena, Áustria, agosto'2017.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.