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Estrelas Esquecidas: o problema da agenda

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 25.08.2018

Em algum do lugar do futuro, numa data qualquer, num calendário do tempo, cada um de nós vai deixar de existir. O que conta, na realidade, é esse aqui e agora, passageiros como já foi o ontem. Nossa agenda, de folhinha ou eletrônica, mostra o que planejamos esperando o dia acontecer. Uma festa, o aniversário de um parente, de um amigo, um pagamento, uma viagem, um encontro, um sonho, por aí. Daí, o tempo vai passando, como quem não quer nada, e de repente, tudo aconteceu, ou não.

Reagenda-se. Geralmente, reacendem-se os sonhos e renovam-se as esperanças. Nesses tempos difíceis, complicados e confusos, ficou comum adiar-se pagamentos. Acarretam consequências, diga-se juros! No mais, está agendado porque as desculpas, em decorrência das facilidades eletrônicas, estão sempre à mão e avisam, como a hora de tomar o remédio, pôr o colírio no olho recauchutado e mil coisas mais. Em algum lugar do futuro, que pode ser amanhã mesmo, essa agenda pode ser cancelada e todos os compromissos que bem intencionados assumimos.

"Quando eu voltar..." - na agenda, estava marcado o dia do embarque, a hora e o número do voo. A volta também, mas até estar de volta depois de haver cumprido todo o roteiro, trazendo lembrancinhas e centenas de fotos, são outros quinhentos. "Vai com Deus..." - e lá vai você, para onde quer que seja, cheio de ideias, de planos, de imaginação, sempre na ante-sala do que andou sonhando antes da partida. Se dá tudo certo, a agenda foi seguida, mesmo com os imprevistos dentro do previsto - porque imprevisto é uma exceção e as exceções são regra em tudo, principalmente na agenda.

Mais um dia, mais um mês, ano, nova agenda e bola pra frente. Sou dos poucos que pode dizer que é do século passado, que viu virar o milênio e tem na cabeça um ano: 2025! Não saberia explicar. Coisas assim como Katmandu. Um dia, tive a sensação de que alguma coisa me esperava em Katmandu, no Nepal. Agendei e fui até lá. Viajei mais um pouco e cheguei a uma parte modesta do quintal rasteiro de onde se ergue, imponente e majestoso, o formidável Everest.

Cheguei a pensar em escalá-lo, mesmo que fosse até a primeira base, mas quando consegui entrever o pico dourado, ainda acanhado às primeiras luzes de um sol do outro lado do mundo, em uma madrugada nevoenta, pareceu-me escutar o vento gelado sussurrando-me num deboche: "Nem tente...!" - estava na agenda, mas foi cancelado o sonho. Definitivamente.

O peso do século e do milênio passados conta. E muito. Semanas depois, a montanha acordou de mau humor, bateu o pé e a terra tremeu. Lugares por onde andei, caminhando radiante por estar ali, ruíram. Eternizei-os em mil imagens, mas não existem mais, como a famosa Praça Durbar, onde muitos de seus templos, construções e história viraram destroços e pó.

O Nepal esteve na minha agenda. No terremoto, perdi duas pessoas que foram muito gentis e atenciosas comigo. Estão registradas na agenda que cumpri, mas já não posso agendar encontrar com elas quando eu voltar a Katmandu. Agendei o Saara, até a Lapônia e mais em cima, além do Círculo Polar Ártico, no Polo Norte; a Islândia, Bamiyan e Band-e-Emir e Mazari-Sharife, no Afeganistão.

Não estavam nessa agenda os perigos de morte que corri por lá. Tive sorte, trouxe pra casa a agenda cheia e voltei outra vez a Kabul, só por pirraça. E trouxe, mais uma vez, a agenda com o registro das exceções e do imprevisível.

Nas agendas de anos passados que precisei jogar fora, haviam registros com centenas de nomes e que representaram histórias que viraram lembranças e saudades choramingadas. Sonho, apenas sonho e me imagino no ano 2025, que é a minha meta. É um desafio, repito: 2025!

Não posso fazer constar nenhum registro. Nada está agendado. Vou simplesmente anotar 2025 e venho de lá pra cá, conferindo o que consegui fazer. A imaginação é incrível. Ainda falta muito, bem sei, principalmente para quem é do século e milênio passados. É difícil cumprir o desafio, mas todo difícil só é bom porque pode vencer o impossível. O problema é essa agenda.

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