Coluna

Estrelas Esquecidas: o pior do ruim

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 24.03.2018

A internet, que ninguém duvide, é a grande invenção de todos os tempos. A comunicação entre pessoas chegou a um nível de sofisticação que - tirante os exageros - é possível saber até se a pessoas com quem falamos através de uotizápis e messengers estão com febre, bastando para isso conversar através de chamada de vídeo e com câmeras térmicas, isso para não falar que os interlocutores dificilmente podem esconder o lugar de onde estão falando.

Ah, tudo isso de graça, bastando pegar carona num rede Wi-Fi compartilhada, por assim dizer. Os inconvenientes, coisa que não podia deixar de existir, são as portas escancaradas para os fuxicos, as mentiras, as ofensas, agressões, ameaças, e tudo isso para não falar nas transações escusas e perigosas, incluindo-se aí mensagens sobre ofertas, pesquisas sobre o nível de inteligência, roubo de dados, comunicação de que tal cartão foi bloqueado, que um motoqueiro viria pegar o cartão do cliente para ser inutilizado.

Dízimos? Ora, os dízimos! Estão em alta e muita gente ficando rica, tudo às custas do pobre homem crucificado. Não adianta falar mal de certos pastores e pastoras, pois a cada dia seus respectivos rebanhos alienados são mais inflexíveis e devotos. Dia desses, li uma notícia sobre uma ex-militante de uma Igreja famosa e de muitos templos faraônicos que entrou na Justiça para reaver todas as doações que havia feito. Deu tudo e não recebeu a contrapartida prometida. Resultado: quer de volta o que deu de boa fé!

A internet nos fornece, "just in time", informações - e sempre as piores - da situação econômica, política, geográfica e física. É claro que os filtros sempre mostram o nosso quintal, a nossa sala, quarto, cozinha, banheiro. Sim, por muito pouco não se fala (pelo menos ainda não vi) sobre o papel higiênico que a Anitta usa, mas de resto? Tudo. O metatarso do dedinho do Neymar amanheceu com febre, mas já melhorou... A Bruna Marquezine dormiu com o dedinho do Neymar...

O tamanho da comoção por conta da execução da vereadora ganhou proporções gigantescas, beirando a cobrança por canonização, enquanto a professora que morreu salvando crianças de um incêndio criminoso caiu no ostracismo silencioso e perverso. Deu-se a um hospital infantil o nome de Che Guevara, mas a professora heroína não ganhou nem o nome na placa de um beco de periferia. É assim mesmo.

O Ferroviário perdeu-se em uma Floresta humilde, o Corinthians, Santos, Fortaleza, Ceará, tudo ruim e todo mundo torcendo contra ou saindo dos estádios para agressões, espalhando terror pelas ruas inocentes. A internet mostra tudo, em tempo real, e facilita a divulgação das ameaças, dos desafios para "sair no pau", polícia descendo a ripa, direitos humanos preocupados com os bandidos das favelas, contra quem é preciso ter muito cuidado para não invadir seus direitos.

Bom, direito aqui é força de expressão ou, no mínimo, discutível. Direito de quem? A esquerda diz que a direita não presta; a direita diz que a esquerda vale muito menos e quem chegou agora fica perdido como deficiente visual em tiroteio ou entra para o bloco das "maria-vai-com-as-outras". Tudo muito ruim. É complicado!

Para completar, não chove! As previsões meteorológicas só funcionam lá pras bandas do Sul. O Norte e o Nordeste estão sempre à mercê de uma tal Convergência Intertropical e o Castanhão não enche nem as águas do São Francisco dão o ar da graça.

A cada dia aumenta o rigor sobre abordar uma mulher... Qualquer "olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça!" - pode dar cadeia, processo, execração na internet, etc. Antes, com tudo de ruim que acontecia ainda se levava a vida e havia alguma esperança. Hoje, o ruim está ficando cada vez pior e para os otimistas é apenas o começo. O pior do ruim é que vai ficar "mais ruim".

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