Coluna

Estrelas esquecidas: O melhor refúgio

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 15.04.2017

Escrever assim, mudando de temas como se lesse um livro cujas páginas seguintes, apenas viradas, tratassem de uma nova história sem nenhuma ligação com a anterior, é um exercício que possibilita a fuga mais fácil dos efeitos das consequências de emoções perversas de quem foi seu próprio sequestrador sentimental.

O poeta vira-se na escolha das rimas e se diverte com a variedade dos verbos, dos sinônimos, dos adjetivos e das palavras que chega a inventar para cumprir a métrica. Tem licença literária e até dela abusa ou extrapola. Muitas vezes, imagina-se escrevendo para si mesmo, em desabafos que aos circunstantes pouco importa ou para chegar onde é mais frágil a receptividade do leitor. E aí, compulsoriamente o faz de solidário "ouvinte" de suas lamúrias, fantasias, invencionices ou molecagens literárias quando discorre sobre o erótico explícito feito um filme pornô.

Escrever é divertido, mas é preciso medir bem o tema e os envolvidos, sejam eles puros e inocentes personagens de ficção ou aqueles que se confundem com a fantasia via imaginação, bem no limite constrangedor do "qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas será mera coincidência...".

Já estive em Betalgeuse, circunaveguei Cannis Majoris à velocidade da luz, fui à Marte e voltei no mesmo dia, conheci uma extraterrestre durante um voo de São Paulo a Lima, no Peru, e ela me disse que estivemos juntos no cenário fantástico do livro Les Rois des Ètoiles, de Edmond Hamilton: "M'entends-tu, John Gordon? Entends-tu mon appel?" - Você me compreende, John Gordon? Você entende o meu chamado?

Está no livro e eu estive lá e conheci o Rei das Estrelas! Recebi muitas visitas de um amigo a quem chamei de "homenzinho verde" e que sempre vinha quando a noite de muitos dias adormecia nas madrugadas que vi nascer. Vi, de lugar privilegiado, refestelados em uma imensa poltrona celeste nas asas de um cometa, a curvatura do Universo, da luz e do tempo no espaço.

Ah, a Teoria da Relatividade de Einstein! Está certa, ou quase. Fiz meus cálculos de Física Quântica e dei aulas para alienígenas menos inteligentes que nós, mas as mulheres de lá são lindas, fantásticas. Beijei muitas bocas de cor de esmeralda. Seus lábios no início são frios, mas esquentam se gostam de abraços quando abraçam com seus quatro braços suaves, generosos, sensuais. Estão sempre nuas e não possuem escamas ou pelos. Não possuem nomes, atendem pelo olhar.

Fiquei pouco...! A fantasia cansa, a imaginação não tem limites. No instante seguinte, já estava em um Universo Paralelo, em outra dimensão. Vi estrelas nascendo e estrelas anãs agonizando e depois se transformando pelas explosões formidáveis no desconhecido afora. Ri da humanidade e o mundo riu de mim, mas nem lhes escutei o som, pois ele não se propaga no vácuo.

Vez por outra vinha em casa para pegar uma muda de roupa. Depois, de um pulo estava nos Himalaias e tomava banho nas águas azuis de Phù Q'uôc, no Golfo da Tailândia. Esqueci minhas sandálias de couro em um dos templos em Bagan, no Miyanmar, e voltei para minha estrada feita com um tapete incrível de pó de estrelas. Descobri que os desesperos emocionais são passageiros e só aparentam que neles não se tem escolha, mas é ledo engano. No espaço infinito, onde as paralelas se encontram, um quarto às escuras é o melhor e mais seguro refúgio para qualquer cansaço.

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