Coluna

Estrelas Esquecidas: O antagonismo da última rima

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 02.12.2017

Do ponto de vista musical, a fuga é uma forma ou uma maneira de escrever música. As fugas não têm um "modelo" em comum: não existe uma fuga igual a outra em termos de estrutura. Não existe uma lógica para definir uma fuga, pois cada uma é diferente da outra e é baseada num tema principal chamado de sujeito.

A fuga, do ponto de vista literário/romântico, tem como característica marcante o escapismo, o desejo do romântico de fugir da realidade para um mundo idealizado ou sonhado quando da agonia pela iminência do pior desfecho de uma benquerença que ardeu, de chama aconchegante no paraíso das quatro estações definidas do amor cultivado e querido como para sempre criado à imaginação de um dos dois ou de ambos. Para o romântico apaixonado, vítima ou culpado de uma despedida, esse golpe certeiro e mortal, depois da dor da certeza do nunca mais, a lamentação se instala e o encarcera na melancolia que tortura todo dia.

Daí, no fundo desse poço, advém a vontade da evasão das realidades somadas e consideradas desagradáveis. O amor ou a paixão que, de repente se tornam impossíveis, remetem à necessidade de alienar-se para transformar o mundo através do Armagedon, não o bíblico, que trata da guerra final entre Deus e os governos humanos, mas a guerra final entre sentimentos que abandonaram as coincidências dos sorrisos, dos desejos, das carnes ardendo e agora são ameaças diante de armas letais que assestaram as miras de acusações, as mais bárbaras, lógicas, ilógicas, banais, vulgares e desrespeitosas apontaram.

A saída mais digna é a fuga silenciosa para qualquer distância, depois de qualquer horizonte, onde é possível chorar o que precisar e tiver de se aliar através de lágrimas contidas pelo orgulho. Nesses lugares, não importa onde, o romântico ferido de morte pode abandonar o choro, as lástimas e se atirar, com as derradeiras forças, na poesia, uma forma de evadir-se das frustrações e sonhos impossíveis.

Aí está o escapismo diante de muitas tragédias amorosas e dramas da vida humana que levaram o poeta do século XIX a fugir. Fuga, no sentido popular e atual, é fugir das responsabilidades, das acusações negadas ao extremo e com desfaçatez. Nesse tipo de fuga, o que some é um fugitivo desavergonhado. A fuga do sentimental é digna; é a sua confissão de sucumbir incondicionalmente ante à carência de forças para reaver o amor perdido. Fugir não precisa ser, necessariamente, fazer as malas com aparente calma ou juntar pouca tralha dentro de uma mochila apressada e sair mundo afora, sem destino ou dia pra voltar, depois de se esgotarem todas as rimas para a sua última estrofe falando de sorte, a não ser...

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