Coluna

Estrelas Esquecidas: naquela mesa

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 31.03.2018

Hoje é fácil resgatar músicas - música com poesia que nunca morre - que fazem sentido e nem foram compostas com apurada técnica carregada de preciosismo, exigida por críticos que nunca compuseram nenhuma dessas bate-estaca. Pois bem, dia desses, sentados em volta de uma meia mesa, velhos amigos aproveitaram-se da facilidade do YouTube e puseram à prova a possibilidade de encontrar até mesmo a introdução da música o Ébrio, cantada por Vicente Celestino.

É incrível! Foi música, foi composta, com bom gosto ou não, mesmo uma dessas porcarias que ofendem a audição de alguém com um mínimo de preferência musical, vem à tela com uma rapidez impressionante e nos faz rememorar, como fizemos, com pitadas de sadio saudosismo.

Lembro que passamos pela canção Naquela Mesa, composta por Sérgio Bittencourt, e depois, quando nos despedimos, lembrei de um amigo querido, unanimidade, não apenas entre nós, contumazes cultivadores do bom hábito de jogar conversa fora na descontraída parceria de boas taças de vinho: Edilmar, o Norões, que agora tem o privilégio de saber se é bom o vinho do Senhor. "Naquela mesa ele sentava sempre... Naquela mesa ele contava histórias..." que nem preciso ter guardadas na memória ou saber de cor, mas que ainda produzem o efeito de fazer florar uma saudade boa de nunca esquecer.

Não era uma mesa cativa, única, era uma mesa, fosse qual fosse, mas uma mesa que se transformava em única, onde quer que fosse, bastando que ele comparecesse ao ritual das sextas-feiras. A saudade do Edil não dói. Ela é das boas, nos faz rir das muitas passagens como as letras das músicas imorredouras, aquelas que a gente nunca esquece. As pessoas chegam a uma idade que não dá mais tempo fazer novos amigos...

Estamos falando de amigos com quem se comeu um saco de sal juntos - como se costuma dizer. Sim, um saco de sal leva tempo para se comer, mesmo em um seleto grupo, e assim, pode-se até dizer que amizades de quase quarenta anos é o que pode se chamar de amizade fraterna. Vez por outra, no meio do nada, sem uma razão especial, levantamos um brinde ao Edilmar, ao Mario, o Pagneretti e alguns outros poucos que se fizeram merecedores das nossas lembranças. Pois bem, fica mais evidente uma ausência desse quilate quando uma mesa é de seis lugares e estamos em quatro.

Em mesas de quatro, as lembranças e os brindes chegam em vontades coincidentes sem que seja por conta de uma data específica, como um aniversário, por exemplo, e o aniversariante esteja festejando em um imenso bar iluminado por estrelas. Fazer parte de uma mesa com direito a simpáticas reservas quase compulsórias é um privilégio santo.

Ausências justificadas por viagens simples ou aquelas abusadas e atrevidas, como quatro meses do outro lado do mundo, dão uma saudade enorme, principalmente para o viajor, e no regresso, a alegria moleque e contagiante nem precisa dos relatos de um contador cheio de histórias. É sempre bom estar de volta. Foi como emoção fragilizada pelo sentimentalismo crônico que meus olhos quase me traíram lá, em Saigon, quando soube que na minha cadeira vazia foram levantados brindes com tempero de saudades irmãs. Essas ausências sempre se recuperam quando volta o ausente. Ruim é quando um médico "proíbe" ou aconselha, quase numa ameaça, diante das gravidades de certas situações apresentadas nas contas do tempo que continua passando para a confraria habitual.

Essas ausências, seja por conta da inevitável prestação de contas que todos assumem quando são trazidos ao mundo, seja por eventuais necessidades de reparos para as máquinas dependentes de uma miserável válvula mitral, uma viagem de prazer, são incômodas e por muito tempo, ou tempo que for, são lembradas e sentidas. Com raras exceções, uma cadeira vazia é apenas uma cadeira vazia, mas a saudade é a mesma. Saúde, Edilmar! Salute, Mario!

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