coluna

Estrelas Esquecidas: Na ilha do sol nascente

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 30.09.2017

Há alguns anos, abri uma brecha na teimosia sentimental para deixar entrar um conselho sobre as malas cheias de passado que insistimos em carregar, às vezes enxertadas com o tabuísmo momentâneo das arengas. Arrastamos essa bagagem sem nos aperceber e, o pior, com o passar dos anos, elas vão ficando pesadas e só nos damos conta quando o corpo pede socorro. É quando, de repente, as lágrimas ficam mais fáceis por conta da sensibilidade que fragiliza certas recordações. Não devia ser assim. Passou? Passou. Tem jeito? Não. Então, deixa pra lá.

O tempo tem fome, engole tudo devagar no seu próprio tempo. Não adianta querer inventar desculpas para esquecer. Insistir em qualquer paliativo que apenas desfoca a nitidez doída de uma dor forte ou encobre a cicatriz madura de um corte na carne não serve de nada. O tempo se encarrega de fazer a digestão de tudo como deve ser. Malas pesadas dão azia. A queimação incomoda muito. Troquei as malas grandes por duas mochilas e ganhei o mundo. Foi um alívio depois de ter sido seletivo.

Sim, é possível escolher lembranças, saudades e até mesmo as dores. Algumas, vi que só faziam volume e joguei fora, inclusive uma coleção inteira de "para sempre, tua"! Ora, todas essas lembranças perderam a validade quando os nomes foram substituídos. Nomes, endereços, quartos, camas, cheiros e manias. As cores dessas recordações apelidadas de saudade já estavam desbotadas e nós nem nos havíamos dado conta. Miopia emocional!

Outras, eram apenas um vício bobo, até de linguagem e tratamento. "Meu amorzinho", meu issozinho, meu aquilozinho, essas bobices que, pensando bem, são ridículas. Chega a dar vergonha quando lembramos, mas conforta quando o "meu amorzinho" é um substituto que pode ter melhor sorte ou provar de um tremendo azar. Reservas de dignidade e superioridade não devem permitir incentivar o insucesso do que passa a ser o dono dos abraços, ouvinte privilegiado dos mesmos gritinhos, gemidinhos, essas coisas da sadia molecagem dos amantes.

"Boa sorte!" - deve-se desejar, mesmo com uma pitada moderada de ironia ou deboche. Todo mundo tem esse direito. Levei um tempão até assimilar o conselho, digamos assim. Nós mesmos, ela e eu, fomos protagonistas de uma desastrada garrafa de vinho dividida. Só sobrou de bom o conselho do qual ainda lembrei depois. Do resto, nem do quarto, nem da cama, nada. Dos lençóis amarfanhados, nem pensar. Uma bruta ressaca, a bem da verdade, foi o que me acompanhou na curta viagem de volta à realidade machucada que levei para passear. E que não melhorou ou piorou, apenas reassumiu o lugar, dentro da desarrumação normal da despedida que deveria ter acontecido bem antes.

Insistir naquilo que perdeu a sintonia, o ritmo, a graça, a alegria, o prazer, principalmente o prazer, é aceitar o ritual da busca por uma corda pra se enforcar - sentido figurado, bem entendido. No fim, falta a coragem e sobra o ridículo da roedeira. Atravessei o mundo para vir cuidar das dores do corpo e da alma. Vim parar em Miyajima, uma ilha sagrada, onde um imenso portão de madeira laranja parece flutuar nas águas do mar de Seto, em volta do Monte Misan, quando a maré está cheia, indicando o santuário xintoísta de Itsukushima, em Miyajima, a pouco mais de uma hora de carro de Hiroshima, no Japão, do outro lado do mundo.

Miyajima, Japão, setembro de 2017.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.