Coluna

Estrelas Esquecidas — Misha: pequenas histórias

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 09.12.2017

A ideia concebida durante o plano da viagem era simples: ficar nos lugares apenas enquanto houvessem surpresas relevantes nas descobertas, alegria nas caçadas de imagens para curtir e gravar nas pequenas e incríveis memórias que substituíram as películas dos filmes. Nada de exagerar na permanência ou deixar criar raízes. Fantasias românticas? Nem pensar.

Por mais prazeroso que fosse, sempre dizia para mim mesmo, ao fim do dia, quando um sorriso curioso se prolongou ou uma conversa dentro do avião, na sala das esperas intermináveis nos aeroportos distantes, no trem sem pressa ou no ônibus cruzando-se países pequenos se tornou interessante e depois curiosa: "Sou de passagem. Não vim para ficar. Minha demora é pouca e não devo me render aos encantos de quem se encantar com contos do viajor que veio de muito longe. Não tenho fé nem sou preso a nenhum deus. Apenas não quero ser ruim ou mau. Carrego o poder de dizer que não entendo o idioma, de ficar silente ou com olhar ausente, distante, maior que todas as minhas distâncias somadas. Posso fingir que leio ou que estou meditando, olhando para o lado de fora do avião que me carrega ou do ônibus cheio de gente estranha como eu, à procura de lugares onde a paz ainda faz morada. Aqui e ali, uma coincidência agradável surgida na curiosidade pelas diferenças de origem ou as razões do mesmo destino. Em quase quatro meses inteiros atravessando fronteiras, cansando os pés, assumindo as consequências dos exageros das caminhadas e as ameaças aos joelhos machucados e os orgulhos de esconder os gemidos pelas dores que foram grandes ou o massagear discreto com os bálsamos dos lugares".

Por conta da discreta cara de dor ainda na rodoviária, a moça de cabelos exageradamente louros, embora naturais, e de olhos azuis abordou-me em inglês carregado: "Are you OK?" - Você está bem?. "Pequenos acidentes acontecem, mas vai ficar tudo bem...". Confesso que não tinha a menor intenção de prolongar a conversa. Estava cansado, machucado. O acidente com a bicicleta foi pequeno, mas para proteger a câmera, caí sobre o joelho. Talvez demora que ainda nos manteria na sala de espera do ônibus para Andong, na Coreia, a tenha feito querer saber o que tinha acontecido.

Antes de contar-lhe sobre o ridículo acidente, estendi-lhe a mão e disse a ela o meu nome. "Misha!"- respondeu, e acrescentou: Sou de uma cidade perto de Kiev, na Ucrânia. Russos e ucranianos são fechados, antipáticos e as mulheres não dão bola para ninguém, mas estávamos sozinhos naquela estação de trem de procura pouca para estrangeiros como nós, e havíamos chegado cedo. Minha poltrona era de fila única, à direita, pelo fato de viajar sozinho. A dela também, duas cadeiras atrás da minha.

Durante a parada que normalmente os ônibus fazem em restaurantes programados para facilitar a vida dos passageiros, encontrei Misha diante da prateleira dos biscoitos. Naquelas paragens, ou você entende coreano ou paga mico perguntando sobre o conteúdo das embalagens. Foi aí que ela me informou que haviam poltronas duplas vazias quase no fim do ônibus e perguntou se eu não queria lhe contar sobre o Brasil. Antes de embarcar, perguntei ao motorista de pouco inglês se podia trocar de lugar. Não responder foi a melhor forma antipática de aquiescer e permitir que sentássemos juntos.

Do Brasil, falei quase nada. Misha estava na estrada há mais de três meses e a amiga que a acompanhava precisou voltar para Kiev, e ela decidiu-se por seguir para Adong. O dinheiro dela estava acabando e depois de Andong ela também voltaria pra casa, e eu rumaria para Tóquio. Quando chegamos à modesta estação do nosso destino, ela fez uma pergunta que me pegou de surpresa: "Onde você está hospedado?". Eu havia feito uma reserva em um hotel próximo da estação de trem porque era de trem que eu queria voltar a Seoul.

"E você?". A amiga havia reservado um "hostel". Gentilmente ofereci-me para dar uma carona de táxi para ela. "Dyakuyu!". Obrigado, em ucraniano. Foi quando ela deu o endereço ao taxista que ficou sabendo que não existia nenhum "hostel" com aquele nome. Perguntei se gostaria de ir ao meu hotel para usar a internet e pesquisar com calma. "Dak, dobre spaciba..." - "Sim, muito obrigada...". Deixei-a na recepção fuçando a internet, fiz o check-in e subi. Voltei quinze minutos depois e ela ainda estava lá. Já havia escurecido e como ela estava praticamente na rua, perguntei se não queria tentar se hospedar ali mesmo. "Você aceitaria dividir o quarto comigo?". Bem, como sei perfeitamente que essa pequena história não deve ser do interesse do leitor, vou ficar por aqui e deixar a Misha dormindo sossegada. Aliás, Misha é o diminutivo de Michalina, em polonês. Quem, vai querer saber o que aconteceu? A vida tem dessas coisas...

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