Estrelas Esquecidas: mensagens dos outros

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 29.07.2017

Tempos modernos, tudo diferentemente estranho e às vezes enfadonho. Coisa do clica em cima, copia, cola ou seleciona em parte, tudo e cola. Fácil demais, mas arriscado, principalmente se o destinatário é chegado a detalhes.

Explico. Imaginemos alguém, mesmo de bom gosto, navegando pela internet e encontra uma frase bonita ou uma imagem finamente ilustrada e pensa em alguém, justo dentro de um contexto especial de suas emoções magoadas ou com toque de insinuações com o propósito de acender ou reacender chamas que podem se transformar em lareiras aconchegantes e remeter seu conteúdo a cobertores que remetam às intimidade afoitas e bem vindas. Como isca para o peixe certo ou com uma fominha, digamos assim, funciona e tem primeiros ecos em respostas gentis e educadas, tipo "Puxa, que lindo!" e pode até se transformar em um catalisador para o eclodir de emoções mais fortes, arrastando incursões mais ousadas e depois, salve-se que puder!

Muitas histórias nesse frágil - convenhamos - mundo virtual, iniciaram assim e é igualmente verdade que até resultaram em algo mais forte, mais profundo, mais sério, sem deixar de ser arriscado pela carência das raízes do conhecimento, do contato ali, olho no olho, vendo os arrepios passearem sobre as peles cujos cheiros ainda não sentiram ou ambos se tocaram. Troca de fotos atualizadas, por exemplo, principalmente as de anos passados, e bota passado nisso, como se tivessem sido tiradas ontem ou em um "recentemente" nada a ver. Das retocadas com filtros milagrosos, extremamente milagrosos, nem é bom falar! Usam e abusam, mas quem não gosta de ficar bem na fita? Até aqui, tudo bem, faz parte do jogo, da fantasia...

Ruim é quando chega a hora do vamos ver, no encontro marcado, ali, cara a cara, vendo a pulsação nos pulsos, no pescoço e muitas vezes o arfar dentro do decote generosamente oferecido à luz de lâmpadas mornas de um restaurante ou mesmo barzinho de bom gosto. Impressiona, mas pode assustar, convenhamos. As palavras trocadas à distância, mesmo que essa distância seja a de um bairro para outro, de uma pequena cidade para outra, dentro dos limites do Estado de ambos ou nos extremos do país ou aquelas transmitidas de além mar chegam a traduzir emoções, tipo quando se apela para "tudo maiúsculo" e a outra parte pode reagir com um engraçado "NÃO GRITE COMIGO!!! NÃO SOU SURDA, VIU?", mas pode ter como resposta um carinhoso "owwwn!" - bem dengoso, de dar suspiro.

Falando assim, até que é bonitinho, digamos, mas quando as mensagens são trocadas através do seleciona, copia e cola, uma depois da outra, tiradas de um baú eletrônico sem fundo e sem fim, chega-se ao ridículo quando essas mensagens trocam de lado e os envolvidos nem se aperceberem ou, rumarem para desfechos tipo assim: "Saindo aqui, morrendo de sono, amanhã a gente se fala, ele chegou, não esquece de apagar tudo, viu?" - coisas do gênero.

As "mensagens dos outros", tipo cartão de loja que vende flores é que são elas. Abusam-se do Fernando Pessoa, do Paulo Coelho, do Chico-da-mãe-Isa ou o que o valha. E tome seleciona tudo ou quase tudo, copia e lá vai a internet alcoviteira levando e trazendo mensagens quentinhas, a fazer confissões de amor ou sentimentos que pertenceram a outros, a mais da conta falecidos ou até em plena atividade. Não que eu seja radicalmente contra, mas bem que essas mensagens que se originaram em verdadeiras inspirações de outros podiam vir precedidas do nome do destinatário, uma vírgula e a seguir, o nome do querido ou da querida. Assinar pode ser assumir como o autor da frase, mas aí já é outra conversa...

Berlim, Alemanha, julho de 2017.

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