Coluna

Estrelas Esquecidas: manobras protelatórias

Estrelas Esquecidas

A. CAPIBARIBE NETO - capi@globo.com

00:00 · 14.04.2018

Segundo o Dicionário Informal, "protelatório" quer dizer protelar, enrolar, atrapalhar, embaraçar, ganhar tempo. Dentre as acepções aceitas como sinônimos para evidenciar uma argumentação em um discurso, protelar, por exemplo, pode significar adiamento, delonga, diferimento, dilação, prorrogação, protraimento, procrastinação, que, por sua vez é a mesma coisa de transferir para outro dia, deixar para depois, delongar, postergar, protrair, mas esse verbo transitivo direto quer dizer fazer avançar, colocar para frente, adiar para outro momento, estender o tempo de duração, prolongar, lançar para o exterior, para fora, tornar proeminente, mais visível, destacar: as rugas protraíram-se da face.

Qual cirurgião plástico diagnosticaria uma cliente dizendo que as rugas de uma determinada cliente estão muito protraídas e que carecem de ser procrastinados ou proteladas? Mesmo que tenha por objetivo pura e simplesmente dizer que a madama vai precisar de seu competente e caríssimo bisturi para condenar essas marcas do tempo em última instância, esse não pode ser o linguajar. Cada palavra em seu lugar e dentro do devido contexto.

Embora a língua portuguesa seja muito rica, dominá-la é para poucos, os quase ungidos. Um juiz, por exemplo, para refutar teses sucessivas de uma defesa qualquer, jamais diria que tal advogado está querendo fazer "cera", adiar uma decisão, mesmo que um determinado ainda não tenha transitado em julgado, uma expressão usada para uma decisão ou acórdão judicial da qual não se pode mais recorrer seja porque já passou por todos os recursos possíveis, seja porque o prazo para recorrer terminou ou por acordo homologado por sentença entre as partes, quando a obrigação se torna irrecorrível e certa.

Mas se o juiz é de futebol, ele tem de sentenciar acréscimos ao tempo regulamentar de uma partida se tiver havido muita interrupção ou por conta de "cera", quando goleiros, por exemplo, protelam o retorno da bola em um tiro de meta. Por mais erudito que seja o árbitro, ele admoestará o jogador uma vez, condena-lo-á em primeira instância com um amarelo e o mandará para o vestiário, com direito a sabonete após a comprovação da sua conduta reprovável ser transitada em julgado, sem mais delongas, com um cartão vermelho - nada a ver com o significado da cor partidária.

E não tem mimimi. Não adianta reclamar, a torcida chiar, embargos daqui, dali, nada: chuveiro! Uma torcida reclama. A outra, aplaude, solta fogos, bate panela.

O Ceará foi campeão. Ganhou na primeira instância por 2x1 e na segunda, repetiu o placar. Bem assim. O time adversário tem todo o direito de se revoltar, fazer beicinho, culpar o técnico, mas o jogo acabou e o Ceará já recebeu a taça e as faixas. Festejar foi uma consequência de uma partida transitada em julgado. A partida foi ali, preto no branco. Sed lex, dura lex, é assim mesmo, está no placar: 2x1!

Vozão, nesse contexto, não tem nada a ver com um segundo pai que faz as vontades de um neto, é apenas um sinônimo carinhoso para designar uma equipe de futebol. Leão, pode até ser o rei da selva, mas aqui, é o outro time, que por sinal foi domado pelo velhinho que agora pode comemorar bebendo cerveja ou degustando caninha. O que tudo isso tem a ver com manobras protelatórias?

Ora, a vez do Leão foi postergada, adiada, transferida para outra data. A língua portuguesa é muito rica, não apenas na imensa variedade de palavras como na riqueza de sinônimos que fazem a festa da hermenêutica, dentro e fora do campo...

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